Jornal Diário Popular , dezembro de 1999
Não. Agora não pode dizer mais que “isso é coisa das oposições”, do Itamar, do Brizola ou do PT. Manchetes dos jornais desta semana mostraram, que há fumaça, e por isso mesmo muito mais fogo do que a opinião pública ainda sabe, no cenário desses verdadeiros assaltos contra o povo brasileiro que são as privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso/FMI/Clinton/países ricos. Primeiro, surgiu a revelação de que “cresce nos partidos governistas a resistência às privatizações”. Logo em seguida, explodiu a crise na Aeronáutica, com o afastamento do seu chefe, abrindo caminho, também na capa de jornais, para a revelação de que o governo FHC endossou acordos secretos para entregar a Embraer, a indústria nacional de aviões, a quatro empresas – da França, aquele país que o sociólogo FHC escolheu para viver no tempo da ditadura.
No caso dos partidos governistas, PSDB, PFL e PPB, a “virada” tem uma explicação simples: o governo FHC dizia que o dinheiro das privatizações permitiria que a dívida do Tesouro e dos Estados fosse reduzida – e, com isso, o País ganharia melhores condições para uma nova fase de crescimento econômico, com estabilidade e um Real forte. Na prática, isso sempre foi uma grande mentira, pois o governo federal e os Estados têm gastado rios de dinheiro para “preparar” as estatais para “privadoálas”. No final das contas, a União, os Estados, a população brasileira ficam sem o patrimônio de centenas de bilhões de reais das suas estatais, e com dívidas bilionárias para pagar. Isto é, as privatizações aumentaram a dívida pública, aumentaram as remessas de dólares, em lugar de reduzi-las, como já havia sido demonstrado no livrinho “O Brasil Privatizado”, de nossa autoria.
É essa realidade trágica que finalmente foi descoberta. A venda da Embraer causa indignação na área militar, por dois motivos. Primeiro porque, como foi longamente explicado nessa coluna ontem e terça-feira, as Forças Armadas, responsáveis pela criação da empresa no final dos anos 60, consideram a Embraer como um instrumento da política de segurança nacional – e, por isso, somente concordaram com sua privatização desde que ela nunca fosse entregue a grupos estrangeiros. O que o governo fez, usando como “laranjas” grupos que passaram a controlar a Embraer? Patrocinou reuniões e a tomada de decisões para a desnacionalização da empresa às escondidas dos militares, que deveriam representar o governo na diretoria da Embraer... Tudo às escondidas à moda mafiosa que o governador Covas, rapidamente, entregou ao Banespa ao governo FHC. O motivo da pressa criminosa ficou claro, ontem: o Conselho Monetário Nacional anunciou que inicia em janeiro a “privadoação” do Banespa. E nesta época dos cúmplices FHC e Covas, com a “autorização” para bancos multinacionais participarem do leilão. Uma dupla traição aos paulistas. Mas, nada de desanimar: as manchetes mostram que há fumaça no horizonte.