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  A repercussão no mercado do dólar

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 10 de abril de 1983


As dezenas de bilhões de cruzeiros pagos “em excesso” na compra de ouro pela Caixa terão, certamente, de ser cobertas pelo Tesouro já que a instituição, mera intermediária na operação, não deverá arcar com o seu peso. Os custos que a compra maciça de ouro trouxe para a economia nacional, porém, são muito mais amplos: ela foi a responsável pela grande especulação no mercado negro do dólar, no começo deste ano, quando as cotações da moeda norte-americana chegaram à casa dos Cr$ 750 com 50% de avanço sobre o final de dezembro.

O próprio ministro Ernane Galvêas admitiu à “Folha” que a compra do ouro, no Exterior, para contrabandeá-lo para o Brasil, era feita com dólares adquiridos no “mercado negro”, e enviados ao Exterior, para pagamento aos vendedores do metal, procedente basicamente de países latino-americanos, sobretudo da Bolívia, mas também comprado em respeitáveis centros financeiros internacionais.

Essa ligação entre o “mercado negro” do dólar e o “mercado do ouro” foi, na verdade, decorrente do esquema de compra montado pela Caixa Econômica Federal, em meados de 1982. Realmente, a CEF comprava o metal pagando, teoricamente, o preço vigente em Nova York, mais uma comissão, de até 9%, às empresas intermediárias. Até aí, tudo normal; ocorre, porém, que o preço do ouro em dólares, em Nova York, não era convertido, em cruzeiros, com base nas cotações oficiais do dólar.

Por inusitado que possa parecer, a Caixa fez a conversão com base no valor do dólar no “mercado negro”. Com essa política magnânima, os vendedores receberam, de outubro a fevereiro, um preço 80% mais alto do que o preço “justo”, isto é, o preço de Nova York convertido em cruzeiros pelo valor oficial do dólar.

Essa ligação entre o mercado do ouro e o mercado do dólar “negro” criou a oportunidade para grandes manipulações de preços nos dois mercados. Segundo especialistas do mercado financeiro, houve momentos em que as empresas que dispunham de ouro para vender à Caixa procuravam comprar dólares maciçamente, no “black” – para, com a grande procura, “puxar” as cotações da moeda norte-americana para cima. Como a Caixa calculava seus preços com base na cotação do “black” no dia anterior, era só procurá-la no dia seguinte e vender o ouro com base nos preços que o dólar atingira no “negro”, no dia anterior, e que eles próprios haviam “puxado”. Tais manipulações podiam provocar lucros de até 40% em poucos dias. Ou, seguramente, no transcorrer de um mês: no começo de dezembro, o ouro estava cotado a Cr$ 5.800 o grama; na terceira semana de fevereiro, a Cr$ 10.080 com lucros de 74% em 50 dias.

Do ponto de vista da economia nacional, essas operações no “mercado negro” do dólar estimularam o subfaturamento nas exportações (os dólares sonegados pelas empresas passaram a ser facilmente e vantajosamente vendidos no “black”), além de terem tumultuado o mercado financeiro com os saques maciços nas cadernetas de poupança, por exemplo, atribuídos à atração que o “black” do dólar passou a exercer sobre os grandes investidores. Mesmo depois da maxidesvalorização do cruzeiro, no dia 18 de fevereiro, o dólar continuou em alta no “black”, segundo muitos, por causa da busca de dólares para a “operação ouro”. Os próprios ministros da Fazenda e do Planejamento admitem essa relação – na entrevista à “Folha”. O ministro Ernane Galvêas, reafirmando que o governo agiu rápido contra as irregularidades no mercado de ouro, atribuiu a queda do dólar no mercado negro, no transcorrer de março, à suspensão das compras do ouro, pela Caixa, anunciada no dia 7 do mês passado.



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