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  No Brasil, salve-se quem puder

Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 8 de abril de 1983


A partir do último trimestre do ano passado, o México fez brutal maxidesvalorização de sua moeda: o dólar, que valia 27 pesos, passou a ser vendido a 150 pesos (450% de desvalorização) para determinadas importações, ou a 109 pesos (300% de desvalorização), hoje, para importações mais essenciais. Além disso, o governo mexicano liberou os preços de 4.000 artigos e duplicou os preços de produtos que eram subsidiados, como o trigo e os próprios derivados do petróleo. A carestia galopou: chegou a 10% em dezembro, também a 10% em janeiro - mas caiu para 5,7% em fevereiro. E, ontem, o governo divulgou a taxa de inflação mexicana no mês de março: 4,8%, isto é, o menor índice registrado desde junho de 1982.

Como explicar que, no Brasil, mesmo antes da "máxi" (de 30%) a inflação já chegasse perto dos 10% ao mês ultrapassando agora essa faixa?

A resposta é simples: no México, como no Chile, na Argentina, na Venezuela, na Colômbia ou na Bolívia, a crise provocada pela dívida externa propiciou mudanças na política econômica, mudanças de ministros e, por extensão, mudanças de atitude em relação aos problemas. Em todos esses países, houve correções de distorções, extinção de privilégios, combate às grandes mamatas. Mais ainda: diante da crise, os governos descobriram a necessidade da "união nacional", do "pacto social" entre empresários, trabalhadores e o próprio governo. No mesmo México, em fevereiro, esse "pacto social" contra a inflação foi assinado, solenemente, no Ministério da Indústria e Comércio, com as empresas assumindo o compromisso de conter os preços de produtos básicos, e os trabalhadores prometendo conter reivindicações salariais. Os resultados estão aí, à mostra.

A diferença fundamental em relação ao Brasil é essa: os outros países reconheceram que estão em meio a grave crise, e toda a sociedade foi convidada a colaborar para enfrentá-la. Mudaram-se métodos de ação e homens. Aqui, é o "salve-se quem puder", já que nada mudou. Por isso mesmo, a inflação dispara. De quem é a culpa? Pelos balanços das empresas - de supermercados a usinas siderúrgicas, de indústrias de óleos a empresas têxteis - pode-se ver que, já em 1982, elas venderam menos, proporcionalmente que em 1981, pois o valor de suas vendas aumentou 60% ou 70%, contra a inflação de 100%.

Seus lucros, no entanto, cresceram violentamente, acima mesmo da inflação. O que isto significa? Aumentos violentos de preços. Vendas menores, produção de menor número de unidades, desemprego - e grandes lucros. Para as empresas. Para a sociedade, o resultado é inflação mais estagnação. Problemas sociais.

Pode-se condenar as empresas por esse procedimento? A resposta seria positiva se o ambiente não fosse de "salve-se quem puder". Se houvesse uma política econômica, e responsáveis por ela. Se o país sentisse que está em crise - mas caminha para solucioná-la.

Por esse mesmo caminho, se pode chegar à análise dos saques e distúrbios em São Paulo. Um ministro brasileiro dizia anteontem à imprensa que em outros países também há crise e não há distúrbios, insinuando que tudo isso se deveria, no caso brasileiro, à ação de agitadores. Cegueira ministerial, eterna. Nos outros países há esperança, porque houve mudanças. Aqui, a desesperança, a falta de perspectivas, leva ao desespero.



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