Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 9 de julho de 1975
Inverossímil e verdadeiro. Quando as cotações nas Bolsas afundavam implacavelmente já há três anos, surgiu o diretor de um Fundo de Investimentos de São Paulo com mais uma sugestão para “reerguer o mercado”: as empresas, propunha ele no primeiro semestre do ano passado, deviam ser proibidas de aumentar o capital. Isto é, de lançar novas ações. Com isso, argumentava, o investidor não gastaria seu dinheiro na compra de ações novas, e seria forçado a “canalizá-lo” para as Bolsas, que, então, entrariam em alta. O raciocínio era tão disparatado, que não vale a pena desfiar argumentos para rebatê-lo. Basta invocar apenas um, a saber: nada garantiria que o investidor, impedido de comprar ações novas, iria comprar ações em Bolsa, podendo optar por outras aplicações para seu capital. Mas vale a pena relembrá-lo, pois ele revela a que ponto as Bolsas de Valores, depois do grande trauma representado pelo “boom” e queda de 1970/71, foram tratadas com emocionalismo, no Brasil, chegando-se à total confusão quanto a seus objetivos e importância. Uma Bolsa de Valores, é óbvio, não tem significado em si mesma, não existe para si mesma, isto é, para provocar ganhos ou perdas a aplicadores de dinheiro – pois, se assim fosse, teriam razões os críticos que as confundem com “cassinos”. As Bolsas de Valores são, ao contrário, um “mercado” onde se compram e vendem ações, com um objetivo bem definido: permitir que haja interesse pela compra de ações, ou, em outras palavras, permitir que surjam condições para o lançamento de ações por parte das empresas. As Bolsas são, assim, um instrumento – haveria outros, mas o Brasil não gosta muito de raciocinar fora dos limites pré-estabelecidos para a capitalização das empresas, isto é, para a captação de recursos que permitam os investimentos por parte das empresas, e conseqüente crescimento da economia do país. Uma proposta para reerguer a Bolsa através do cancelamento de sua própria finalidade, de permitir a capitalização das empresas, e, assim, uma inversão de valores, total e inaceitável.
Agora que as cotações finalmente entraram em alta, chegou o momento de arquivar esse enfoque distorcido, pelo qual a Bolsa é um fim em si mesmo. Chegou o momento de atender não às “necessidades das Bolsas”, mas das empresas, em particular, e da economia do país, globalmente.
HORA DE REPENSAR
Quando se detona um processo de altas violentas nas Bolsas, como nas últimas semanas, qualquer hesitação na tomada de decisões é desastrosa. E, mais desastroso ainda é o raciocínio distorcido, preocupado exclusivamente com as cotações. Deflagrado o interesse pelas Bolsas, os bilhões de cruzeiros aplicados em outras – “open” ou cadernetas de poupança, especulação imobiliária ou estocagem – encaminham-se para o mercado de ações. Com o fluxo, as cotações sobem rapidamente, através de velozes compras e recompras por “investidores” que melhor seriam chamados de “operadores”. Cria-se, em resumo, o conhecido “leilão”, em que o excesso de dinheiro transforma as ações em mercadorias escassas e pelas quais se paga qualquer preço. Essa distorção pode ser atenuada mediante lançamentos maciços de novas ações.
Na pasmaceira que caracterizou as Bolsas nos últimos anos no entanto, o lançamento de ações para aumento de capital de empresas também entrou em recesso. Os departamentos técnicos dos bancos de investimentos, que deveriam analisar a situação das empresas lançadoras dos títulos para verificar se sua compra não seria lesiva ao investidor (tarefa que não cumpriram no “boom” de 1971), foram desfeitos, com dispensas em massa. As próprias empresas se esqueceram da possibilidade de captar recursos no mercado de ações – pois ela inexistia. Tudo somado, pode-se prever que serão necessários alguns meses até que haja a possibilidade de lançamentos maciços de ações, para aumentar a oferta e evitar o previsível leilão, que não “esperará” pela reorganização do mercado. Os riscos dessa situação podem ser evitados.
No momento, o país promove uma “reciclagem” de sua economia, procurando incentivar investimentos maciços nos setores básicos: máquinas e equipamentos, fertilizantes, minerais, material ferroviário, papel e celulose. Os grandes projetos para essas áreas, em busca de financiamento, foram exaustivamente examinados pelos organismos oficiais de crédito a que solicitaram recursos para sua execução. Suas ações podem ser, assim, rapidamente lançadas no mercado, sem risco para o investidor, graças a esse “aval” indireto do governo - que poderá usar de métodos indiretos para levar as empresas a optarem pelo lançamento de ações. As instituições oficiais, nessa tática, dosariam os financiamentos solicitados pelas empresas, condicionando a concessão de uma parcela dos recursos previstos à venda de opções ao público.
HORA DE INVESTIR
O Plano Ferroviário Federal – que vem sendo alvo de violenta carga por parte de um “lobby” facilmente identificável – deveria consumir cerca de 27,0 bilhões de cruzeiros em cinco anos. Sabe-se, no entanto, que os aumentos dos custos das obras de engenharia e equipamentos tornaram esse orçamento totalmente irreal, e somente a “Ferrovia do Aço” (São Paulo a Belo Horizonte) custará aqueles 27,0 bilhões, acreditando-se que o Plano exija não menos que 60,0 bilhões – apenas na área federal. Faltam recursos para essas obras, - que, note-se, são apenas um exemplo das necessidades de investimentos do país – da mesma forma que os projetos industriais nos setores básicos lutam pela captação de recursos. Usar o mercado de ações para capitalizar as empresas é uma forma para “liberar” recursos, das instituições oficiais, para a execução de obras de infra-estrutura, cujo atraso traria prejuízos terríveis à economia do país. E a “troca” será vantajosa às empresas, que tanto têm gritado contra os juros e correção monetária cobrados nos financiamentos, e que deixariam de pagar, se levantassem recursos através da venda de ações.