Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 9 de setembro de 1982
As empresas não devem esperar um afrouxamento na política de combate à inflação, usando-o como justificativa para novo ciclo de remarcação de preços, como parece ter ocorrido em janeiro. Autoridades monetárias reiteraram ontem, à “Folha”, que o governo está buscando fórmulas para readquirir o controle sobre a expansão dos meios de pagamento (depósitos à vista nos bancos comerciais, mais dinheiro em poder do público), que estourou as metas previstas para o fim de 1981 e, pior ainda, ultrapassou as previsões também no mês de janeiro.
Ampliando explicações dadas anteriormente pelo presidente do Banco Central, Carlos Langoni, porta-vozes oficiais afirmam que, até certo ponto, as taxas de expansão dos meios de pagamento nos primeiros meses deste ano têm as características de uma “ilusão estatística”.
“Nos primeiros meses de 1980, todo mundo sabe, houve violente aplicação de freios ao crescimento do crédito e dos meios de pagamento. Por isso, quando se faz a comparação entre o volume de meios de pagamento existente hoje e há um ano atrás – isto é, a taxa de crescimento anual -, acaba-se encontrando um aumento de 80% ou mais. A base de comparação, isto é, os volumes do ano passado, é extremamente baixa, pois naquela época o governo vinha brecando violentamente o crescimento de recursos dentro da economia. Como essa política drástica perdurou durante todo o período de 1981, as taxas anuais de expansão dos meios de pagamento, nos primeiros meses deste ano, tenderão a crescer, dando a impressão de um afrouxamento que na verdade não existe.”
Com essas explicações, as autoridades monetárias não querem, no entanto, negar a existência de problemas reais para manter a política monetária – e o combate à inflação – dentro do rumos previstos.
Em janeiro, revelam elas, as operações na área monetária propriamente dita, sob sua responsabilidade, permaneceram sob controle, tanto que os empréstimos do Banco do Brasil, por exemplo (que representam injeção de recursos dentro da economia, contribuindo para a expansão dos meios de pagamento) sofreram queda em relação ao ano passado. Onde, então, houve problemas? Há uma série de “contas” dentro do orçamento monetário que devem ser “paga” pelo Tesouro Nacional, como os subsídios ao crédito agrícola, as exportações, ao Proálcool etc., e fixadas em 450 bilhões de cruzeiros, para este ano.
Tais “contas”, porém, devem ser “pagas” mês a mês, desde o começo do ano – enquanto a arrecadação da União é sempre mais fraca nos primeiros meses do exercício: “Em janeiro, dizem os porta-vozes oficiais, houve um déficit do Tesouro superior a 50 bilhões de cruzeiros”, isto é, a União não teve condições de cobrir aquelas “despesas”. Com isso, as autoridades monetárias tiveram de reinjetar, dentro da economia (para cobrir os compromissos do Tesouro), parte do dinheiro emitido no final do ano, e que havia sido recolhido, no mês de janeiro, como tradicionalmente ocorre: “Ainda assim, houve uma contração de 7% nos meios de pagamento, isto é, não chegamos a recolher tantos recursos quanto queríamos, mas houve alguma contenção, em relação a dezembro.”
O esquema que o governo está estudando para evitar novas injeções de recursos dentro da economia por parte das autoridades monetárias é extremamente simples: rever a aplicação dos recursos previstos para determinadas áreas e deslocá-los para as contas “ a descoberto” que as autoridades monetárias têm sido forçadas a honrar. Não há nenhum obstáculo para a aplicação desse esquema, já em discussão com o ministro Delfim Neto: hoje, mais de 40% das receitas da União não são vinculadas, isto é, não devem ser obrigatoriamente aplicadas em determinadas áreas, podendo ser utilizadas livremente. Com esse remanejamento de recursos, as autoridades monetárias acreditam poder manter a expansão dos meios de pagamento sob controle relativo até abril/maio, quando a arrecadação da União tradicionalmente apresenta expansão, graças sobretudo ao Imposto de Renda.