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  O pessimismo e seus equívocos

Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 30 de setembro de 1983


“O Brasil vai continuar no fundo do fosso por mais quatro ou cinco anos” afirmam com insistência líderes empresariais e economistas, quase diariamente. Para reforçar essas previsões pessimistas, não faltam, mesmo, cálculos estapafúrdios. Afirma-se, por exemplo, que setores em que a produção caiu 10% ou 15 % nos últimos dois anos, levarão “dez anos” para voltar aos seus níveis normais. Como se afirma, também, que serão precisos dez anos para que os desempregados pela indústria sejam novamente reabsorvidos. Quais os cálculos que servem de base para essas previsões? No caso do emprego, lembra-se que a indústria paulista já desempregou 400 mil de seus trabalhadores, de dezembro de 80 para cá, reduzindo-os de 2,0 milhões para 1,6 milhão. A seguir, aponta-se que, “tradicionalmente”, a indústria somente criava de 2,5% a 3% de novos empregos por ano. Logo, conclui-se, seriam necessários de 6 a 7 anos para reabsorver os desempregados. Como, porém, é preciso contar ainda com o número de brasileiros que chegam todos as anos ao mercado de trabalho urbano, então somente em dez anos ou mais a legião de desempregados desapareceria.

É claro que esse cálculos são uma tolice completa. Em tempo normais, o aumento de vagas no mercado de trabalho depende do crescimento da economia e, portanto, corresponde realmente àquela expansão de 2,5% a 3% ao ano (taxas que poderiam ser substancialmente melhoradas com uma política de emprego, que não cabe discutir aqui). Mas uma “recessão” é um período excepcional, de crise, em que o desemprego industrial se alastra em virtude da redução na produção das fábricas, provocada por sua vez, pela queda na demanda. É evidente que, tão logo o período recessivo fique para trás, a produção e o desemprego voltem a níveis normais.

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Para não ficar só no palavrório, é bom ver o exemplo dos próprios EUA, onde a indústria, em 1982, chegou a operar com até 65% da capacidade ociosa em vários setores e que, uma vez reativada a economia, voltaram à plena utilização de suas instalações – em poucos meses. Como, da mesma forma, em apenas um mês (julho último) – nada menos de 500 mil trabalhadores norte-americanos foram readmitidos pelas empresas. O radicalismo – pessimista – com que os problemas econômicos do País têm sido tratados são freqüentemente encarados até como um gesto de coragem política, de denúncia contra a desorientação que está aí. A posição pode ser absolutamente equivocada, do próprio ponto de vista político. Quanto mais se exagera, desnecessariamente, o vulto dos problemas, mais se reforça a falsa crença de que a crise é tão complexa que não há, mesmo, nada a fazer. Acaba-se dando a impressão de que o governo e seus ministros não têm responsabilidade pelo caos – porque dificilmente alguém faria melhor ante tamanhas dificuldades irreais.



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