Jornal Diário da Manhã , quarta-feira 5 de outubro de 1983
Contra a especulação – o comportamento dos setores participantes da especulação com alimentos está afastando quaisquer dúvidas, em Brasília, quanto à necessidades de medidas mais drásticas pelo governo:
Milho – depois que a saca do produto pulou de Cr$ 5.200,00 para Cr$ 10.000,00 no espaço de cinco dias úteis, o governo ainda tentou medidas indiretas para esvaziar a manobra: autorizou importações e a CFP passou a vender o produto, nos leilões de bolsas, na faixa de Cr$ 6.300,00 a Cr$ 6.800,00. Na segunda-feira, porém, a CFP teve que suspender o leilão em São Paulo, porque o preço já disparara para Cr$ 8.500,00. Conclusão: os preços só serão detidos com a desova de estoques. Que só acontecerá com corte no crédito e levantamento do volume de estoques.
Carne – No final de julho, o governo e frigoríficos acertaram um preço, já elevado, de Cr$ 660,00 para o quilo de carne congelada estocada. O produto passou a ser vendido, em agosto/setembro, por Cr$ 1.150,00 o quilo do traseiro, e Cr$ 950,00 o dianteiro. Pois agora os frigoríficos já desejam um aumento de 18%, alegando que pagam juros de 10 por cento ao mês sobre o capital imobilizado com a estocagem. Acontece que o governo forneceu Cr$ 75 bilhões a juros subsidiados, para a estocagem, e acontece, ainda, que o preço de Cr$ 1.150,00 já representou um acréscimo de quase 70% sobre os Cr$ 660,00 originais (e onde já se incluíam os “juros” dos meses anteriores, bem como custos de armazenagem etc.).
Carne – Outra manobra: ontem, em São Paulo, a carne congelada de segunda, nos supermercado,s estava custando quase a mesma coisa que a carne congelada de primeira: Cr$ 1.720,00 o patinho, Cr$ 1.620,00 o peito ou o acém...
Feijão – O governo, através da CFP, continua a vender feijão a até Cr$ 19.500,00 a saca, ou Cr$ 325,00 o quilo, a supermercados. Ontem, nos supermercados de São Paulo, o feijão mais barato custava Cr$ 650,00 o quilo (e tratava-se um produto terrivelmente misturado, com grãos mofados, quebrados etc.). Conclusão: não há motivo para a CFP continuar entregando seu feijão a intermediários, para assegurar-lhes lucros de praticamente 100%. Deve-se partir para a venda direta à população, num programa de que governos estaduais e municipais poderiam participar.