Equipe de O Brasil de Aloysio Biondi
Entrevista realizada em 2004 por Aloisio Milani, Antonio Biondi e Rodrigo Savazoni.
O texto está dividido em quatro partes:
I – Primeiros Anos
II – A Ditadura
III – A Democracia
IV – Últimos Anos
III – A Democracia
O ano é 1982. Washington inicia uma nova fase em sua vida. Muda-se para Goiânia, para dirigir o jornal Diário da Manhã (ver artigo sobre no livro Vozes da Democracia). A experiência resulta inesquecível. Depois dela, Washington jamais voltou às redações. Aloysio participa com ele desse sonho. Primórdios da redemocratização do Brasil. Anos de muita expectativa, de transformações.
Antonio - Esse período entre o Correio da Manhã e o Diário da Manhã. Como se manteve a relação de vocês. Vocês continuaram amigos? WN: Muito.
Antonio – Vocês se viam? Washington – Muito amigos, mas nos vendo muito poucos. Era um em São Paulo e outro no Rio. Ele quase não ia ao Rio eu quase não ia a São Paulo. Então nos víamos muito pouco. Fui ao casamento. Nos encontrávamos. Toda vez que eu ia a São Paulo.
Antonio – Telefone, trocavam cartas? Washington – Pouco. Realmente pouco. Só quando encontrava mesmo. Aí em 82 o Aloysio veio e veio como editor assistente, já cuidando da parte de economia do jornal. Quando eu vim para cá, eu tava no Globo Repórter e o Marco Antonio Coelho, pai do Marco Antonio Coelho Filho, da TV Cultura, tinha vindo para cá, porque ele tinha saído da cadeia depois de anos de prisão, onde foi muito torturado. Ele não conseguia emprego em São Paulo.
Marco Antonio tinha sido alto dirigente do Partido Comunista. E ele conhecia o Batista, de quando ele tinha sido Deputado. Ele ajudou o Batista em alguma coisa naquela época e ele pediu emprego para o Batista, que deu emprego para ele e ele veio para cá. O Marco Antonio estava aqui e era muito amigo do Cláudio Abramo. E o Cláudio sugeriu que ele chamasse algumas pessoas para escrever no jornal, e entre essas pessoas estava o meu nome. Eu não conhecia o Marco Antonio.
Daí um dia ele me telefonou, falando isso, que o Cláudio tinha sugerido, que ele gostaria, e um dia, numas férias, eu passei aqui por Goiânia, fui lá ao jornal, conversei com ele, me apresentou o Batista. Então, em janeiro de 82 eu comecei a escrever um artigo por semana no jornal. E aí pelo quinto ou sexto artigo, eu escrevi um onde eu falava sobre o que eu entendia por ética no jornalismo e contava um episódio da época da Folha, desse começo, quando fui trabalhar com o Mário Lobo, tio do Aloysio, que era o secretário.
Então o Lobo me passava para preparar as notícias que chegavam dos repórteres. Um dia ele me passou uma notícia que era de um sujeito desempregado e desesperado que matou os quatro filhos a tiros, matou a mulher e com a última bala do revolver se matou. Eu preparei a notícia entreguei para o Lobo e naquela época não tinha diagramação em jornal, diagramação era o secretário, o sub-secretário e eu que fazíamos na oficina.
A gente ia lá e montava a página fisicamente, com material composto. Aí eu vi quando o Lobo marcou o original: uma coluna, página 14. Eu falei: “O Lobo, uma notícia dessa você vai dar em uma coluna na página 14?” Aí ele me olhou assim, muito sério e falou: “Você faria o que?” Eu disse: “Eu daria na primeira página com o maior destaque”. E ele disse: “Por que?” “Porque uma notícia como essa revela um problema social muito grave, pode chamar atenção da sociedade para essa coisa”, eu respondi. Ele me disse: “Pode ser que você tenha razão, mas quando eu era o secretário da Folha da Tarde, chegou uma notícia igual a essa, um cara que matou a família inteira e se matou porque estava desempregado. E eu fiz o que você está dizendo que faria. Eu dei na primeira página, com muito destaque. Nos dias que se seguiram chegaram várias notícias de outras pessoas que tomaram o mesmo caminho. Eu nunca vou saber se alguma dessas pessoas leu aquela notícia no jornal, mas eu não tenho mais coragem de dar esse destaque. Agora eu também não posso deixar de publicar. Porque eu estou aqui para publicar. Então a solução que eu tenho é essa. Publicar numa página interna, sem destaque. Se alguém tiver uma solução melhor do que a minha eu estou disposto a discutir”.
Aí eu contava isso no artigo e dizia que passados naquela época vinte e tantos anos desse fato e da morte do Lobo que eu tinha colocado essa questão para muita gente, para muitos jornalistas, os mais brilhantes do Brasil, e ninguém tinha uma resposta. Ninguém tinha uma resposta para a seguinte questão: qual é a responsabilidade pessoal do jornalista naquilo que ele faz. E não é a da imprensa. E não adianta a gente ficar escondido atrás da responsabilidade da empresa. Tem uma coisa que é do jornalista de responsabilidade dele. Decisão dele. Que você faz e como influencia. E que isso precisa ser discutido pelos jornalistas, que precisa ser avaliado, mas que isso estava fora da discussão.
Meu artigo era isso aí. Para minha surpresa, recebi um telefonema do Batista dizendo “se é isso que você pensa por que não vem fazer?” Eu fiquei muito assim, né. Ele falou “vou aí no Rio, conversar com você”. E aí foi lá, falou que era isso que ele queria, um jornalismo responsável. E eu falei, mas não é só isso. Eu acho que um jornal só pode ter um compromisso: com o leitor e com a sociedade. Não pode ter compromisso com governo, com poder econômico, compromisso tem que ser com o leitor.
E o Batista disse que topava. Que daria inteira liberdade para eu fazer o jornal que eu quisesse. Acabei vindo e tocando o jornal dando essa direção ao jornal. E o Aloysio veio. Isso não é agosto de 82 é agosto de 83. Ele veio no segundo ano.
E qual que era a razão pela qual o Aloysio disse que queria vir? Washington – Ele não estava contente com as coisas dele lá em São Paulo e acha que essa coisa de seguir esse rumo seria uma coisa interessante.
Foi a época da crise da Folha... Washington – Foi antes da crise da Folha. Ele veio e entrou de cabeça nessa coisa. E o jornal era muito forte. O Diário da Manhã tinha uma força aqui em Goiás que era...quando eu vim para cá o jornal tinha uma circulação de seis mil exemplares por dia.
Quando nós saímos, no final de 83, já tinha trinta mil de circulação durante a semana e quase quarenta mil no domingo. Durante a semana ele já ganhava do O Popular, que era o jornal mais importante daqui, mais forte, que é da mesma empresa afiliada da Globo, e no domingo ele perdia por uma pequena diferença porque o outro tinha um caderno de televisão. Nós tínhamos tomado 60% dos classificados e estávamos começando a entrar na mídia nacional.
Tínhamos inclusive uma sucursal muito forte em Brasília, chefiada pelo Pompeu de Souza, um dos fundadores da Veja! Tinha gente muito boa lá, a Helena Chagas, que hoje é do Globo...E aqui em Goiânia, a força do jornal era uma coisa enorme. Era o dono do mercado aqui em Goiás. E o jornal tinha essa característica de o único compromisso dele ser com o leitor e com a sociedade. Não havia essa coisa de isso não pode publicar, isso não sai. Isso não existia. E você criar esse conceito de um jornal na sociedade é uma coisa que tem uma resposta muito forte.
A sociedade sabia que o compromisso do jornal era com ela. O jornal fazia debate nos bairros sobre os problemas dos bairros. Levava gente do governo. Cobrava solução. Jornal fazia debates públicas em auditórios, chamava gente de todos os setores, jornal tinha um conselho de leitores que se reunia todos os dias à uma hora da tarde, com todos os editores. Cada editor era obrigado a levar um repórter ou um redator da sua área. E nessa reunião se discutia todo o jornal que tinha sido feito e o que ia sair no dia seguinte.
Qualquer divergência era resolvida por votação. O dono do jornal se quisesse ir na redação poderiam ir, ele e a mulher dele, que eram os donos, mas eles tinham um voto. E frequentemente foram derrotados nessas reuniões. Esse compromisso era tão forte e nós mesmos denunciamos na primeira página uma pesquisa sobre a sucessão estadual que nós tínhamos encomendado, e publicávamos todo mês, até que ficou evidente que o cara estava roubando. (risos) Então nós colocamos um editorial denunciando o cara. Nós não podemos deixar de publicar a pesquisa, porque vai ser dito porque nós paramos de publicar para favorecer o candidato de oposição, que era o Íris Rezende. Se nós publicarmos nós vamos ser acusados de favorecer o candidato do governo, do PDS.
Então qual é a solução? Nós estamos aqui denunciando, vamos continuar publicando, agora no dia seguinte nós vamos conferir cidade por cidade, urna por uma, a pesquisa e o que aconteceu e se não tiver correto...e assim foi feito.
No dia seguinte conferimos uma por uma e denunciamos os caras como uns safados e o instituto acabou por causa disso aí. Todo dia tinha episódios muito fortes, onde a gente contava para o leitor o que estava acontecendo, quando alguém tentava interferir no jornal contava, que era para não interferir mais mesmo, para ter medo...isso foi indo até se somarem várias crises. Uma crise com o governo do Estado, que era o maior anunciante e estava puto com o jornal. Com os empresários que estavam putos com o jornal, porque éramos muito independentes, e o que tornou insuportável, uma crise conjugal do Batista com a então mulher dele a Consuelo, que era contra fazer o jornal daquele jeito...
Foi o melhor veículo que você chegou a trabalhar? Washington – Ah, eu acho. Nunca mais eu quis dirigir um jornal. Não vou conseguir chegar a ir de um jornal com essa independência, fora a qualidade que o jornal tinha. O Jânio voltou para a comunicação com uma coluna sobre o Rio, o Newton Carlos fazia uma coluna internacional, o Cláudio escrevia as vezes, o Fernando Sabino. Tinha episódios muito interessantes na vida do jornal.
Teve um dia que uma repórter do jornal, a Lisa França, que hoje é minha vizinha, foi à casa de detenção e ela ficou muito impressiona porque encontrou uma moça dos seus 19 ou 20 anos com uma criança de uns dois anos e meio, outra de um ano e pouco e uma terceira na barriga e todos eles vivendo da caridade dos presos. Comiam os restos que os presos deixavam.
Isso tudo porque o marido dela estava preso e a história era a seguinte: o marido dela, quando nasceu aquele menino que estava com um ano e pouco, ele tentou comprar leite fiado num botequim e o dono não quis vender e ainda começou a chamar de vagabundo, debochou. Aí, ele puxou um canivete e enfiou na barriga do cara e fugiu. Alguns dias depois ele foi preso e já estava preso há vários meses. Então, essa matéria chegou na reunião do conselho editorial e tinha uma foto impressionante daquela mulher com uma criança em cada mão e aquele corredor de celas, e os presos com aquelas mãos crispadas segurando nas barras de ferro.
Então, nós demos essa foto na largura inteira da página, toda a página do jornal e dentro contava essa história. Aí, apareceu no jornal no dia seguinte um promotor público que tinha ficado impressionado com aquilo e queria mais informações. Ele foi atrás do processo e a Lisa o acompanhou. Aí ele viu que o cara só tava preso porque era pobre, porque era réu primário, então ele podia responder em liberdade. O cara não tinha morrido, eram apenas lesões corporais, não era homicídio. Os prazos processuais estavam todos vencidos e ele nem advogado tinha.
Então, o promotor pediu ao juiz que o libertasse e o juiz autorizou a libertação dele. Aí a Lisa e o promotor foram até a casa de detenção e ele foi libertado nesse dia mesmo. A Lisa voltou para o jornal com a matéria contando essa história e com as fotos desse reencontro da família. Estampamos na primeira página uma seqüência de fotos desse reencontro.
No dia seguinte apareceu um outro procurador do Estado, aposentado, e um outro repórter acompanhou a família na volta pra casa. Eles moravam num barraco de papelão, numa comunidade de mendigos e catadores de papel embaixo de uma ponte daqui.
Aí, esse outro repórter fez a matéria desse retorno deles, todos em volta de uma fogueira numa noite de inverno. Aí um procurador do Estado reconheceu na foto em volta da fogueira um irmão de criação dele que ele não via há uns 40 anos. Ele foi lá pegou o cara e levou pra casa dele. No outro dia fomos lá e publicamos o encontro deles, ele tomando banho, fazendo barba etc. No outro dia, o governador do estado baixou uma ordem para que um desses programas habitacionais destinasse uma parte da verba para essas pessoas que moravam embaixo da ponte. Isso foi para a primeira página de novo.
Então, essa é apenas uma dessas histórias, das várias que eu poderia contar, desse caso do jornalismo seguir atrás da história e transformar isso em coisas importantes. Tem uma outra história muito bonita... um dia eu cheguei no jornal e o Batista veio falar comigo, dizendo que tinha um doido que havia ido ao jornal reclamar que tinha levado umas porradas na Caixa Econômica Federal e o segurança tinha dados uns tapas nele porque ele andava com um saco nas costas e um penico.
Mas ele queria abrir uma conta na Caixa e não conseguia porque diziam que não podia se abrir uma conta para um doido, que não dava para dar um talão de cheques para um doido. Eu conheço o gerente da Caixa, é um cara decente, então eu pensei: “eu vou ver”.
Aí, eu peguei a matéria para dar uma lida, a repórter era Lisa, e ela me dizia que aquilo mesmo, que cada vez que o cara chegava para abrir a conta tinham mais exigências que ele tinha que cumprir. Então, se ele 5, diziam que ele tinha que ter 10, se tinha os 10 diziam que era 15 e assim sucessivamente. Aí, naquele dia ele havia perdido a paciência foi lá reclamar e o segurança deu umas porradas nele.
Lendo a matéria, aparentemente estava tudo ok, tinha a Caixa, o cara, o segurança... aí virei pra Lisa e falei: “Bom Lisa, o tinha que ser feito está feito, mas o que me ocorre é o seguinte: será que não é o caso de procurar a família dele, ver se o cara é doido ou não?”.
A Lisa virou e disse assim pra mim: “Ah, eu não vou não. Esse critério não é seguido nas outras matérias... tem pessoas mais doidas que falam todos os dias no jornal, como Delfim, e ninguém vai procurar as famílias deles pra ver se eles são doidos. Por que vai fazer com esse cara?”.
Era um argumento interessante. Aí eu falei: “vamos fazer o seguinte: essa matéria ninguém vai dar mesmo. Então, vamos levar esse assunto para a reunião no conselho editorial e eu quero que você vá lá discutir o assunto e vamos o que acontece”.
Aí nós chegamos, eu botei o assunto em discussão e como toda vez que se fala doido pega fogo, começou uma discussão incendiada. Metade do conselho dizendo que não devia se publicar a matéria, porque aquilo lá iria virar um refúgio de doidos e outros dizendo que deveria se publicar. Aí um dos editores virou e falou: “Oh, mas vocês não tão vendo. Tá escrito. O cara anda com um penico nas costas porque ele foi aposentado por incontinência urinária e ele não que ficar mijando em qualquer lugar porque em Goiânia não tem banheiro público. Então é um cidadão exemplar!”.
Daí nasceu uma campanha do jornal para construção de banheiros públicos. Mas chegou uma hora na discussão que sugeri que publicássemos a matéria no domingo, contando o que aconteceu e quem quiser dar sua opinião também escreva. Isso gerou uma coisa que pra mim é umas das mais bonitas no jornal. Fizemos duas páginas de discussão em torno desse assunto que era, aparentemente, de um doido. Saíram essas duas páginas e começou um debate na seção de cartas, os leitores debatendo a questão, inúmeras cartas chegando todos os dias sobre esse assunto.
E uma dessas cartas dizia: “vocês querem ver doidos? Então por que vocês não vão no manicômio judiciário?”. E nós fomos. No dia seguinte foi um repórter e um fotógrafo e voltaram com uma foto incrível, que eram os internos do manicômio judiciário, eram mais de 100, todos nus no pátio, tomando um banho de esguicho.
Publicamos na primeira página. Saiu no jornal, aí o secretário de saúde mandou uma carta ao jornal, dizendo que o jornal não tinha ética ao publicar uma foto como aquela. Isso gerou um editorial do jornal do dia seguinte, que falava que dizer que o jornal não tinha ética era como dizer que não tinham ética os fotógrafos que fotografaram os campos de concentração, na Alemanha nazista, e não Hittler. E quem não tinha ética era ele.
O secretário foi demitido pelo governo do estado e o governo mandou fazer uma reforma no manicômio. Então, era esse processo de você ouvir a sociedade e ir atrás das coisas. E quando havia tentativas de desviar o jornal, o jornal denunciava e publicava. Isso acabou nos levando também a criar uma coisa, que eu tenho a impressão que nunca houve na imprensa, que era o conselho de leitor.
Convidamos 50 pessoas para participar disso, representando os sindicatos de empregados e os sindicatos patronais, as igrejas, as universidades, os vários setores sociais, engenheiros, advogados etc. E o conselho passou a se reunir uma vez por mês para fazer a crítica do jornal, e essa crítica era publicada no jornal.
Isso é genial... Washington – Pois é. As reuniões tinham começado com uma por mês, depois virou quinzenal, aí virou semanal. E as discussões no conselho eram muito intensas.
Pra citar um exemplo só, tinha um conselheiro que era da União Brasileira dos Escritores e era da universidade daqui, propôs que o jornal voltasse a editar um suplemento literário que já tinha existido e que tinha acabado. Aí, um cara que era do sindicato dos bancários e disse que gostava de ver o nome do Fernando Sabino no jornal etc, mas que se existisse um caderno com nome literário ele jogava no lixo.
Aí, um outro cara que era representante da associação das micro e pequenas empresas tirou um tênis e começou a bater na mesa e a falar: “que suplemento literário o que, nós temos é que falar desse tênis. Porque esse tênis foi desenhado por um criolão daqui do Goiás que tinha uma pequena fábrica no quintal da casa dele e fez o maior sucesso com esse tênis e começou a vender adoidado. Ele quer expandir o negócio, mas não tem gente especializada em Goiás, o que está dificultando o trabalho dele. Tem que falar dessas coisas, das pequenas empresas etc”.
Isso levou à criação de uma seção semanal que falasse das micro e pequenas empresas do Goiás e das coisas que elas estavam fazendo.
Você ficou quanto tempo no jornal? Washigton: Eu fiquei um ano e sete meses.
E o Aloysio? Washigton: O Aloysio ficou uns seis meses no jornal e começou a formar gente no jornal. Nós tínhamos muito conflito no jornal com o pessoal do PT, que queria fazer um jornal partidário. E a gente dizia que jornal não era partidário, mas sim um espaço aberto a tudo. Mas chegou um momento que chegou essa soma de crises e gerou um impasse porque a mulher do Batista exigia que demitisse metade da redação e acabasse com aquele projeto. Eu cheguei a negociar com a redação e o pessoal abriu mão de um aumento salarial em troca de não demitir ninguém durante um ano, mas ela não aceitou e exigiu do Batista que demitisse. E quando ele fechou a questão eu disse que ia embora, e aí saímos todos.
Por que ela exigia isso? Washington: Porque ela queria dirigir o jornal. Aí o Aloysio foi pra Folha. E isso eu acompanhei um pouco porque foi a grande do Aloysio com os economistas do PMDB. O Aloysio foi ser editor de economia do jornal e ele seguiu uma linha que ele já vinha trabalhando dentro da Gazeta Mercantil e aqui no Diário da Manhã e quando chegou lá, ele defendia uma tese de que a economia brasileira que tinha entrado em crise em 1982, com a crise da dívida externa, como foi chamada, então se declarou um impasse, a economia entrou em recessão.
E o Aloysio vinha escrevendo que a economia estava em fase de recuperação, estava crescendo um pouco e isso deixou indignados os economistas do PMDB que confundiam isso com apoio a ditadura. Aí o Aloysio, quando voltou pra Folha, em 1984, começou a traduzir isso no jornal. E começou a provocar uma reação nesse pessoal que achava que isso era apoio a ditadura. Essa polêmica foi crescendo e o Aloysio não tinha medo disso e mostrava para eles que eles estavam errados. Aí ouve uma coisa muito triste, a Conceição, que era nossa amiga, escreveu um artigo dizendo que de médico e louco todo mundo tem um pouco e que o Aloysio estava exagerando... e o que foi pior é que ela foi à direção da Folha pedir que demitissem o Aloysio.
Por que ela fez isso, então? Washington: Porque eles achavam que defender essa posição era ajudar a ditadura. Bom, mas algum tempo depois, eu encontrei o Carlos Lessa e eu disse pra ele que aquela coisa não tinha cabimento, que o Aloysio estava certo. Aí ele disse: “mas ele não pode defender a ditadura”. E eu respondi que ninguém estava defendendo a ditadura, que aquilo era realidade e que a função do jornalista não era esconder aquilo.
E o Lessa a dizer que não, que ele tava defendendo a ditadura. E foi uma briga que o Aloysio, na época, sustentou praticamente sozinho. Quando ele morreu, num artigo que eu escrevi, eu até disse isso. Porque ele tinha razão e até hoje ninguém pediu desculpas.
Com a Conceição ele se entendeu depois de alguns anos, com os outros eu não sei. Mas eu acho que esse pessoal tinha uma visão errada porque eles achavam que, como estava em curso um movimento que devia desaguar nas diretas já era que isso ajudava o governo. Agora, saber a quem ajuda ou não, isso não é função do jornalista.
O jornalista tem que escrever o que está certo e era o que o Aloysio estava fazendo. O Aloysio tinha um acervo pessoal, que todo mundo sabe que ele juntava um monte de papel sem nenhuma sistematização, mas ele valia por uma instituição de pesquisa e análise sozinho. O tempo provou que ele tinha razão.
Depois disso, ele voltou pra Gazeta e de lá foi para o DCI e de lá para a Visão. Nessa época a gente vivia um pouco a distância, mas eu escrevia para a Visão, mas como eu continuei morando em Goiânia era uma coisa distante.