Revista Visão , quarta-feira 28 de agosto de 1991
O Brasil não terá 200 milhões de habitantes no ano 2000. Seremos apenas 176 milhões (ou até menos), 24 milhões abaixo daquele número mágico, segundo recentes estudos oficiais. Como explicar o sumiço daquela gigantesca massa humana? Antes de qualquer análise, é mais proveitoso refletir sobre as conseqüências da derrubada do mito da “explosão populacional brasileira”, que apavorou a sociedade nas últimas décadas. Primeira conclusão: o Brasil real, de hoje, é totalmente diferente do país retratado por economistas, cientistas sociais, lideranças empresariais e lideranças sindicais. Por quê? Porque os 24 milhões de brasileiros previstos nas projeções estatísticas e “desaparecidos” simplesmente deixaram de nascer, ao longo das duas últimas décadas. Ou, mais claramente: milhões deles já não existem. Hoje. Conclusão: estão erradas todas as estatísticas que retratam o país.
O déficit habitacional não é do tamanho que se diz. A falta de escolas, idem. A falta de hospitais, ibidem. Para energia elétrica, combustíveis, produção e alimentos, roupas, ou construção de rodovias, metrôs, sistemas de transportes, a mesma coisa. Em poucas palavras, a desgraceira nacional é muito menor do que se diz. Mas este país é tão viciado em desgraceira que a revisão das projeções sobre o tamanho da população, surgida há umas três semanas, não mereceu a menor atenção dos especialistas. Por quê? Todo mundo adora imaginar um Brasil sem solução, sem condições de investir para resolver os gigantescos problemas sociais e econômicos – que estão claramente superdimensionados em função das estatísticas populacionais erradas. Prefeitos e governadores adoram repetir as estatísticas superdimensionadas, para superdimensionar os problemas – e pedir verbas à União.
Porta-vozes da direita, além de fanáticos pelas teses de “controle populacional”, superdimensionam problemas para convencer a sociedade da necessidade de abrir as portas ao capital estrangeiro, pois do contrário – dizem – os problemas não terão solução. A esquerda? Também tem uma cartilha velha de cinqüenta anos, onde os problemas também são superdimensionados para repisar a única tese que as esquerdas brasileiras conheciam até recentemente: o trabalhador é uma vítima. Paradoxalmente, não há nada mais “reacionário” do que esse discurso dos sindicalistas e intelectuais “progressistas” brasileiros. Eles convencem o próprio trabalhador de que há excesso de mão-de-obra no país, o que já não é verdade paras regiões mais desenvolvidas, e criam condições “de mercado” fictícias para justificar os baixíssimos níveis salariais pagos mesmo no rico Sul/Sudeste. Esta é uma das principais conseqüências do “sumiço” de 24 milhões de brasileiros. Sempre se falou, no Brasil, na necessidade de gigantescos investimentos para criar empregos, porque todos os anos 2 a 2,5 milhões de brasileiros estariam entrando no mercado de trabalho, engrossando as fileiras de subempregados e desempregados.
As estatísticas, revistas, estão mostrando que isso é tudo ficção. Não só hoje, mas já nos últimos anos, algumas centenas de milhares de brasileiros não “entraram” no mercado de trabalho – pelo fato puro e simples de que nunca entrarão, porque pura e simplesmente não existem, não nasceram. Num balanço rápido: a população é menor, a necessidade de empregos é menor, a necessidade de investimentos é também menor. Tudo isso precisa ser longamente analisado pelas elites brasileiras, inclusive no Congresso, no momento em que o governo procura adotar um modelo econômico que moldará o futuro do país – e que, no entanto, está baseado em premissas falsas, porque inspirado por estatísticas também superadas.
Pode-se perguntar: mas não há um milhão de desempregados somente na Grande São Paulo? Primeira resposta: nos últimos cinco anos, quase 1,5 milhão de pessoas encontraram novos empregos, na região. Segunda resposta: as estatísticas incluem “trabalhadores” a partir de 10 anos de idade... Terceira resposta: aquele número, também, é mera projeção, e tudo indica que está totalmente equivocada. Por quê? Ela é feita assim: os pesquisadores constatam, visitando as casas da região, que há 10% de desempregados (inclusive de 10 anos). Então, como as previsões estatísticas falam que a população local está em torno de 20 milhões, dos quais 10 milhões estão dispostos a trabalhar (População Economicamente Ativa), aplicam-se os 10% sobre 20 milhões, e se chega a um milhão dos possíveis desempregados.
Ora, se a população na verdade é menor do que se dizia, então esse milhão também está errado. O Censo de 1991 é vital por isso: ele vai mostrar um Brasil, suas metrópoles, seus problemas, totalmente diferentes. Para melhor. Único grande problema: o Nordeste, que exige uma política especial, com urgência. Em tempo: por que milhões de brasileiros não nasceram? Por causa dos programas de controle da natalidade? Só residualmente. Na verdade, desde 1970 a taxa de natalidade vinha caindo no Brasil pelas transformações que todos os países já tiveram. A principal delas: a urbanização, o crescimento das cidades. Nelas, os casais tendem mesmo a ter menor número de filhos. O amor pela desgraceira, à direita e à esquerda, nunca deixou que se prestasse atenção às mudanças em marcha.