Jornal Diário Popular , segunda-feira 22 de maio de 2000
O número espantoso de 350 mil crianças mortas no Brasil em apenas três anos, de 1995 a 1997, foi divulgado pelo próprio Ministério da Saúde há poucas semanas. Causa do morticínio: doenças (como diarréias) provocadas pela falta de saneamento, isto é, de abastecimento de água e serviços de esgotos. Por que o País enfrenta essas estatísticas alarmantes? Porque a instalação desses serviços está praticamente suspensa no Brasil há dois anos, isto é, o governo FHC decidiu bater recordes na trágica fabricação de “anjinhos”. A afirmação é um exagero? Você está enganado. Os planos de instalação de redes de água e esgotos, pelos Estados ou municípios, eram executados basicamente com dinheiro emprestado pelo FGTS, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, isto é, com dinheiro dos próprios trabalhadores, para pagamento a longo prazo. Parece incrível, mas é verdade: há dois anos o governo FHC simplesmente proibiu o FGTS de realizar novos empréstimos às empresas estatais responsáveis pelo fornecimento de água e esgotos, como a Sabesp. Ç por isso, inclusive, que a população da região da capital de São Paulo está enfrentando novo racionamento de água: como noticiado por este DIÁRIO POPULAR, a Sabesp, sem os empréstimos do FGTS, tomou empréstimos internacionais, sofreu prejuízos gigantescos com a desvalorização do real, e acabou paralisando quase totalmente seus projetos no Estado. Qual o motivo para a proibição imposta pelo governo FHC?
A resposta sempre repetida, de que a “culpa é do acordo com o FMI”, é falsa. A decisão é do presidente da República, mesmo. Por quê? Realmente, o acordo com o FMI previu limites para os gastos do setor público, isto é, dos governos federal, estadual e municipal. E, atenção, estabeleceu um “teto”, ou valor máximo, que as dívidas desses governos e suas estatais podem atingir. Nem se discute que essas imposições do FMI são um absurdo, que só um governo ligado aos interesses dos países ricos, e indiferente aos interesses do Brasil, poderia aceitar.
Mas o fato é que o FMI estabelece o valor dos cortes, e o valor das dívidas máximas, e pára por aí: quem decide onde cortar, e decide quais empresas ou áreas do governo podem aumentar sua dívida, aí quem decide é o presidente da República e sua equipe econômica, elegante e perfumada. O que aconteceu nos últimos anos? O presidente da República mandou liberar nada menos de R$ 21 bilhões para as empresas estatais de telefonia - que iam ser privatizadas - gastarem na instalação de redes telefônicas, em dois anos e meio, isto é, de 1996 a meados de 1998. E, para não estourar os limites do FMI, mandou cortar até mesmo os empréstimos que permitiram atender a outras áreas, como você está cansado de ver no noticiário: universidades, hospitais, distribuição de remédios, Petrobras, reforma agrária, rodovias, Polícia Federal, e até água e esgotos. O presidente da República deu preferência aos telefones, abandonando serviços essenciais para o povo. Quem é mesmo o responsável pelas tragédias que o povo brasileiro está vivendo, e que vêm provocando manifestações crescentes de protesto?