Revista Isto É , quarta-feira 19 de março de 1980
Há um drama nas regiões já industrializadas?
Reunião da Sudene, há dez dias, com a presença do ministro Mário Andreazza: aprovados 51 projetos, com investimentos de 4 bilhões de cruzeiros. Para o setor industrial, 3,6 bilhões de cruzeiros. Para o setor agrícola, 257 milhões de cruzeiros. Péssimo. Mas tem mais: os projetos industriais criarão 1.482 empregos. Só. Os projetos agrícolas, 216 empregos. Só, somente. São números que desmentem qualquer otimismo provocado por recentes entrevistas e análises do alto escalão do Ministério do Interior, de que a prioridade para corrigir desigualdades dentro do país foi dada à política de emprego. Chegou-se, nessas análises e entrevistas, a assinalar que, dentro dessa política, a prioridade prioritária seria dada à agricultura, porque é muito mais barato criar um emprego no campo do que na fábrica, isto é, gasta-se menos para dar apoio a uma lavoura do que para comprar máquinas e colocá-las em funcionamento — e emprega-se muito mais gente no campo.
ATÉ QUANDO?
Dividindo-se os 3,6 bilhões de cruzeiros liberados pela Sudene para a indústria (em uma única reunião) pelos (é proibido chorar) 1.482 empregos criados, tem-se o custo de 2,38 milhões por emprego. Loucura absoluta. E na agricultura? Repetindo-se as contas, os 216 empregos criados com 257 milhões de cruzeiros custarão 1,2 milhão cada um. A metade da indústria, é verdade. Mas ainda assim uma loucura total, absoluta. Cifras como essas mostram como é difícil, no Brasil, passar do diagnóstico à terapia. O governo fala, neste momento, em conter as migrações internas, em fixar as populações em suas regiões de origem. Uma orientação que traria benefícios sem conta ao país, que reduziria, inclusive, a marginalização de milhões de pessoas em alguns (é importante fazer a ressalva: alguns) grandes centros do Sul/Sudeste e, conseqüentemente, reduziria também o surto de violência nessas áreas. As diretrizes para conter ou redirecionar as migrações prevêem dezenas de postos de órgãos do governo na rota das correntes migratórias, para impedir que milhões se dirijam aos pseudo-eldorados desenvolvidos. Tudo estaria perfeito, se houvesse a preocupação real em dar condições de sobrevivência, de ganhar a vida, às populações que deixassem de emigrar. Quando isso não existe — e os dados da Sudene estão aí, para mostrá-lo —, a sensação que fica é a de que se está tentando erguer cercas no país, para impedir que os marginalizados procurem o Sul Maravilha. E, principalmente, impedir que eles, ao não encontrarem as maravilhas que esperavam, invadam o território dos privilegiados — de armas na mão, como vai ficando frequente no surto de criminalidade dos dias recentes.
A LONGA ESPERA.
Acima de tudo, os dados da Sudene demonstram mais uma vez, e é a bilionésima, que o debate em torno do problema do desemprego no país está absolutamente equivocado. Virou um tema da moda, sobre o qual muito se fala e pouco se medita, e em torno do qual, ainda, poderosos interesses tentam gigantesca manipulação. Insiste-se em que um menor crescimento industrial este ano provocaria grande desemprego na região industrial, isto é, na Grande São Paulo, onde já existiriam milhões de desempregados e subempregados. Com imensa leviandade, dia-sim-e-outro-também, surgem análises mostrando que há grave desemprego "escondido" em São Paulo. Qual a base para essas análises? Os dados do IBGE, levantados na chamada Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD), e que mostrariam milhões de pessoas ganhando menos de um salário mínimo, isto é, desempregados e subempregados que fazem "biscates" eventuais e por isso ganham menos de um salário mínimo. Isso é verdade? Não. Os dados do IBGE têm sido interpretados de forma absolutamente facciosa e enganosa. A PNAD de 1976 mostrava que em São Paulo havia 16,8 milhões de pessoas em condições de trabalhar, isto é, acima de 10 anos de idade. Desse total, apenas 8,8 milhões constituíam a População Economicamente Ativa (isto e, pessoas que realizaram algum tipo de trabalho nos últimos doze meses anteriores a pesquisa). E, desse total, apenas 1,5 milhão de "trabalhadores" ganhavam até um salário mínimo.
ERRO COMUM.
"Estão vendo? Olhe aí o desemprego disfarçado", dizem as análises apressadas que surgem todos os dias. Nada disso. E preciso ver que, no caso de São Paulo, existem 1,3 milhão de "trabalhadores" dos 15 aos 19 anos, nos dados do IBGE. Pequenos "bóias-frias"? Não: no caso paulista, de 1,3 milhão de trabalhadores dos 15 aos 19 anos, apenas 200 mil estavam na agricultura em 1976. Quem são eles, então? Preponderantemente, os auxiliares de escritórios, os boys, os aprendizes na indústria etc. — que conseguem trabalhar exatamente porque há emprego, há mercado de trabalho também (o também é importante para eles. O grande, o pavoroso desemprego/subemprego "escondido" no Sul do país, de que tanto se fala, não se comprova em São Paulo. Mas sim no Rio, diga-se desde já, e que é uma verdadeira região-problema do país. E, obviamente, no Nordeste: para uma População Economicamente Ativa de 11,6 milhões de "trabalhadores", havia 5,6 milhões recebendo até um salário mínimo e 2 milhões sem qualquer rendimento. Mais ainda: de 6,8 milhões de "trabalhadores" da População Economicamente Ativa da zona rural, nada menos de 3,5 milhões recebiam até um salário mínimo e 1,7 milhão não tinham qualquer rendimento. (Não se quer discutir, aqui, a exatidão desses dados do IBGE. Ainda que estejam distorcidos, em termos absolutos, eles espelham claramente a realidade nordestina.)
PONTO FINAL.
O contraste entre o mercado de trabalho de São Paulo e do Nordeste demonstra o óbvio: o país precisa de uma política de emprego, sim — mas voltada basicamente para o Nordeste e outras regiões-problema. E essa política, ainda mais, tem que pensar prioritariamente na agricultura, conforme os dados citados revelam. Não, porém, em termos de grandes projetos, que exigem 260 milhões de cruzeiros para criar 216 empregos, como continua a ocorrer. Há neste momento uma chance de ouro para dar uma guinada na política de emprego no país. É o que se verá a seguir nesta coluna.