Você está enganado. Os “tigres asiáticos” não estão “quebrados” coisíssima nenhuma: eles já saíram do “fundo do poço”. Todo o noticiário sobre as quedas alucinantes das Bolsas da região é, portanto, no mínimo superficial.
Você está enganado: o Japão não está “quebrado” coisíssima nenhuma. Nem a Venezuela. Você está enganado: a economia dos EUA não continua no auge coisíssima nenhuma, está acumulando problemas que têm tudo, não se espante com a afirmação, para transformar os EUA e Wall Street na “bola da vez”.
Balanço dessas afirmações todas: as quedas violentas nos mercados mundiais nos últimos meses dão a sensação de que a economia está explodindo e caminha para o fim do mundo. Mas não é nada disso.
Olhando bem as estatísticas, pode-se afirmar sem medo que, na verdade, o mundo está chegando ao fim de um ciclo, em que os EUA obrigaram os países menos poderosos a escancarar seus mercados, entregar suas empresas e patrimônios – e caminhar para a quebra. Tudo com a ajuda do FMI e do Banco Mundial. Agora, desemboca-se no ciclo seguinte.
Está chegando a hora de os EUA “pagarem a conta”. Para demonstrar tudo isso, não há como fugir ao uso de estatísticas, esmiuçadas a seguir. Antes, porém, é preciso dizer: o Brasil, sim, está “quebrado”.
A explosão dos “tigres asiáticos”, em julho do ano passado, provocou o espanto geral, já que eles eram apontados como um “milagre econômico” até então. Na verdade, eles acumulavam problemas sobre os quais não se falava, a saber: haviam feito a “abertura” de suas economias, importavam maciçamente – mais do que exportavam – e, por isso, estavam com grandes saldos negativos em sua balança comercial (exportações menos importações). Precisavam cada vez mais de capital externo, dólares, para cobrir esse “rombo”, até que a situação chegou a um ponto insustentável e os dólares fugiram – exatamente como o Brasil vive, nos últimos meses.
Com essa crise de um ano atrás, as moedas dos países asiáticos também desabaram, isto é, se desvalorizaram – as importações ficaram mais caras e as exportações, mais baratas.
Resultado: hoje, um ano depois, os “tigres asiáticos” têm novamente saldo positivo em sua balança comercial, com exportações superiores às importações (resultados acumulados de 12 meses): Coréia do Sul, nada menos de US$ 25 bilhões; Taiwan, US$ 5 bilhões; Tailândia, US$ 5 bilhões; Indonésia, US$ 18 bilhões, e, finalmente, a Malásia, que acaba de adotar medidas de controle do câmbio, US$ 6,5 bilhões.
Em crise, com “rombos”, só restaram Hong Kong e Filipinas. Por que então não se fala dessa recuperação dos “tigres asiáticos”? Talvez porque, como dizia a revista The Economist, duas décadas atrás, o irônico, na economia mundial, é que “governantes e economistas falam hoje de problemas de ontem, e não enxergam os problemas de amanhã”.
Da mesma forma que os “tigres asiáticos”, a Venezuela tampouco está “quebrada”, sem dólares. O país tem um saldo de US$ 9 bilhões na balança comercial e US$ 13 bilhões de reservas. Por que entrou em crise? A queda nos preços do petróleo reduziu a arrecadação de impostos e criou dificuldades para o governo pagar sua dívida. Mas dólares, saldo com o exterior, não faltam.
E o Japão? Tem um saldo mensal (mensal) de US$ 10 bilhões. E, por mês, outros US$ 10 bilhões de saldo com as aplicações de investidores e empresas japonesas no exterior.
A essa altura, já é possível entender que a situação real da economia de um país nem sempre coincide com os altos e baixos das Bolsas, principalmente nestes tempos da chamada “globalização”, em que um mercado arrasta o outro para cima ou para baixo. Por isso mesmo, o turbilhão dos últimos meses não é o “fim do mundo”.
Os “tigres asiáticos” vão bem, o Japão não tem “rombos” em dólar (e até na Rússia os problemas são outros). Na outra ponta, estão os EUA, que, como foi dito acima, impuseram a política de "abertura" de mercados a outros países e os “quebraram”. Com isso, provocaram a desvalorização de suas moedas, o que, em nova etapa, permitiu o aumento de suas exportações. Para onde? Sobretudo para os EUA...
Nos últimos meses, as exportações asiáticas para o mercado norte-americano cresceram de 25% a 30%, provocando novo salto no rombo (crônico) que os EUA têm com o exterior: nada menos de US$ 23 bilhões só no mês de junho ou US$ 220 bilhões no acumulado de 12 meses.
Além do “rombo” comercial, as mercadorias asiáticas “roubam” mercado dos produtos norte-americanos, vale dizer, “roubam” empregos, renda, capacidade de consumo. Isto é: hoje, os EUA começam a levar o “troco” da política que impuseram ao mundo nos últimos anos e que lhes deu imensa prosperidade. Pleno emprego e assim por diante.
Em agosto último, um dos principais termômetros da economia dos EUA desabou: o índice dos diretores de compras, que mede o volume de encomendas para a indústria, recuou para 49,3, contra 57,6 em julho, o pior resultado em dois anos e meio.
É o fim do mundo? Não. Não. A economia mundial encerra um ciclo, que privilegiou os EUA, com a ajuda da gazua da onda neoliberal. Agora, tudo recomeça. Com outro ciclo, em que certamente os governos dos países “emergentes” rediscutirão seus caminhos. Basta ver o que aconteceu na Malásia. Ou as já célebres críticas do economista Paul Krugman às políticas do FMI/EUA.
É o começo do fim (do ciclo) das propostas neoliberais. E a situação do Brasil? Para não alongar, por absoluta limitação de espaço: em outubro, o governo terá de “pagar” (ou colocar novos títulos) nada menos de R$ 47 bilhões de sua dívida interna, isto é, o dobro das médias mensais. E, já nos últimos dias, não está conseguindo vender seus títulos...