Revista da Fenae , outubro de 1999
No primeiro semestre do ano passado, as empresas “brasileiras” (isto é, incluindo-se as multinacionais que operam no país) conseguiram levantar US$ 17,5 bilhões em empréstimos no exterior. Neste ano, no mesmo período, os banqueiros internacionais lhes emprestaram apenas US$ 3,5 bilhões. Cinco vezes menos. E a juros duplicados, de 7,5% a 8,5% para 15% a 16%. E os investidores estrangeiros voltaram a fugir das Bolsas brasileiras, remetendo US$ 630 milhões para fora, em agosto. Qual o principal motivo da desconfiança mundial em relação ao Brasil, retratada claramente nesses números? Medo de “calote”. Justificável. O governo brasileiro, com sua dívida interna caminhando para a cifra fantástica de meio trilhão de reais, está enfrentando uma carga de juros de praticamente R$ 10 bilhões. Por mês. Por mês. Como a arrecadação está na faixa dos R$ 12 bilhões mensais, isto significa que o Tesouro só consegue pagar uns R$ 2 a 3 bilhões desses juros a cada mês, e joga os restantes R$ 7 a 8 bilhões mensais no bolo da dívida - que cresce, portanto, como “bola de neve”.
O Brasil continua quebrado. Os banqueiros e investidores internacionais sabem disso. Põem a barba de molho. E, num videotape trágico dos acontecimentos do ano passado, o “mercado”encurrala o governo contra a parede. Desde o final de julho, voltou a onda de compra de dólares inclusive nos mercados futuros, com novos recuos para o real.
Desesperado, o Banco Central volta a lançar títulos, “papagaios” do governo com o valor fixado em dólar, isto é, com correção cambial, esperando que o mercado compre esses títulos e deixe de pressionar as cotações do dólar. Tudo, tragicalmente igual à crise de janeiro (adiada, na verdade, desde maio/junho de 1998). O governo FHC continua a “rifar” o futuro do país, atolando o Tesouro cada vez mais, e sujeitando-o a novos “rombos” aterradores resultantes da desvalorização do real em que os banqueiros apostam. O desastre tem sido adiado por um maquiavélico apoio do FMI, que estica a corda para o governo FHC com o objetivo de dar-lhe tempo para realizar “determinadas” privatizações. Principalmente, a exploração do petróleo nacional.
O governo FHC já marcou, para este mês de outubro, os novos leilões para entregar, a multinacionais, as fantásticas áreas petrolíferas descobertas pela Petrobras ao longo de décadas. Nunca é demais repetir: em sua plataforma submarina, o Brasil tem, sem que o povo brasileiro saiba disso, os campos de petróleo mais fabulosos do mundo. Áreas em que um único poço é capaz de produzir 10.000 (dez mil) barris de petróleo por dia. Um poço. Por dia. A 22 dólares o barril, são US$ 220 mil por dia, ou US$ 6,66 milhões por mês, ou algo como US$ 80 milhões por ano. Algumas dessas áreas já têm 25 poços em exploração que rendem, portanto, US$ 200 milhões por mês. Ou, ainda, US$ 2,4 bilhões (com a letra “b”) por ano, equivalentes a uns R$ 4,5 a 5 bilhões por ano. Toda essa fortuna poderia ser da Petrobras, isto é, basicamente do Tesouro, seu principal acionista. Está sendo entregue de graça às multinacionais. Os leilões são a última cartada do governo FHC, na tentativa de atrair dólares. Mas são, também, um novo e monstruoso crime de lesa-Brasil. O nascente movimento de reconstrução da nacionalidade, anunciado pelas oposições, conseguirá evitá-lo?