Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 8 de fevereiro de 1996
Os grandes lucros dos bancos em 1995 mostram que há excesso de inverdades sobre a economia brasileira e as "reformas".
Mente-se sobre os bancos, sobre o "excesso de funcionários", sobre a onda de fusões de empresas, sobre os salários e encargos, sobre a quebra da Previdência e assim por diante.
Mais do que escandalizar, os lucros obtidos pelos bancos indicam a necessidade de refletir sobre a facilidade com que os formadores de opinião têm aceito dados falsos ou teorias pretensamente sofisticadas e "modernas" sobre a economia.
Os primeiros balanços divulgados mostram que, em vários casos, os bancos tiveram lucros de até 30% sobre o patrimônio líquido, ou três vezes a lucratividade tradicional do setor, na faixa dos 12%, e até 500% acima dos resultados do sistema financeiro internacional.
No entanto, nos últimos meses, a sociedade brasileira foi bombardeada com explicações sofisticadas sobre a queda do "lucro inflacionário" dos bancos. A partir daí, pipocaram as análises também sofisticadas sobre o risco de quebra de pequenos bancos e a "inevitabilidade" de fusões e incorporações. Era tudo palavrório vazio.
Mais ainda: o objetivo da disseminação dessas teses era abrir caminho para a equipe econômica lançar o programa de ajuda bilionária aos bancos, com dinheiro do contribuinte, endividamento do Tesouro, perdão de impostos e tudo mais.
Os lucros dos bancos podem deixar um saldo positivo, permanente, para o país, ao mostrarem a necessidade de rejeitar modismos!
Está na moda afirmar que o Brasil entrou na "onda" mundial de fusões e incorporações de empresas (para "ganhar escala" etc. e tal). Em 1995, dizem os dados, essas operações teriam "explodido", com crescimento de 300%, de R$ 700 milhões em 1994 para R$ 2,8 bilhões em 1995. A análise dos dados mostra outra realidade. Duas operações, sozinhas, respondem por R$ 2,2 bilhões. Uma: a "compra" do Nacional pelo Unibanco. Outra: a compra da Kolynos pela Colgate. Um caso de "quebra" e um caso de divisão mundial de mercados, portanto.
Para combater a sonegação, o INSS fiscalizou 300 mil empresas em 1995. Ou menos de um terço das 1,1 milhão de empresas visitadas em 1993.
Na comparação com o número de habitantes, o número de funcionários públicos federais, estaduais e municipais é dez vezes menor que na Inglaterra (mesmo depois de Tatcher) e 20 vezes menor que na França. O próprio ministro Bresser Pereira admitiu recentemente que o "inchaço" do funcionalismo é um mito. Cultivado para justificar "reformas".
Causou furor, durante meses, a repetição de que no Brasil as empresas enfrentavam mais de 50 impostos. Houve até "pesquisas" mostrando que as empresas gastavam incríveis dois terços do seu tempo cuidando da papelada. Balela.
Nunca se explicou que realmente existem vários tipos de impostos e taxas no Brasil, mas que cada empresa só paga meia dúzia deles, que são específicos para o seu setor.
Por exemplo: há uma taxa de renovação da lavoura de cacau que, obviamente, só empresas do setor pagam, ao negociarem o produto e seus derivados. E assim por diante.
O mito dos 50 impostos serve para desmoralizar o Estado _e justificar a sonegação.
Repete-se ’’ad nauseam’’ que a mão-de-obra pesa muito no custo das empresas, no Brasil, porque os encargos trabalhistas chegam a 102%.
Artigo do economista Demian Fiocca, publicado dia 31 de janeiro último nesta Folha, mostra que eles, na verdade, não passam de 35,8%. A acrescentar: mesmo que os encargos fossem de 100%, estariam sendo cobrados sobre salários baixíssimos, dez vezes menores que nos países industrializados. Não são os salários ou os encargos que causam desemprego.