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  Crise nos EUA, preocupação real de Clinton

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 17 de setembro de 1998


Clinton não está preocupado com o Brasil ou a América Latina ao propor que os países ricos acertem ponteiros para manter o crescimento da economia mundial. Em um longuíssimo discurso, capaz de ocupar uma página de jornal, dedica míseras 16 (dezesseis) linhas à América Latina e nem cita explicitamente o nome do Brasil.

Clinton revela preocupação, isso sim, com o futuro dos EUA e lança na verdade uma ofensiva para tentar evitar que o mundo abandone as políticas neoliberais de escancaramento de mercados que tanto beneficiaram a economia norte-americana nos últimos anos.

Quando Clinton fala em evitar o “colapso mundial”, na verdade está dourando a pílula (inclusive para a opinião pública norte-americana).

Ele usa a velha estratégia, de se mostrar desprendido, “preocupado com outros povos” – mas seu objetivo real é manter os privilégios de que os EUA têm desfrutado. Clinton quer evitar que os países “quebrados” pelas exportações dos EUA e pela especulação financeira “neoliberal”, como é o caso do Brasil, voltem a adotar políticas econômicas em que haja proteção à indústria e à agricultura locais – proteção que os EUA sabem implantar, muito bem, ao seu mercado.

Essa tendência está ficando cada vez mais clara nos últimos dois meses, com o abandono das teses neoliberais que os EUA, FMI e Banco Mundial literalmente impuseram ao mundo nos anos recentes.

A “virada” ameaça a economia norte-americana – como esta coluna procurou demonstrar em análise publicada há duas semanas. A tão falada "crise mundial" não existe. O que há, sim, são ameaças à economia norte-americana. A ofensiva de Clinton comprova.

Desequilíbrio dos EUA

Clinton relembra, em seu discurso, as vantagens obtidas pelos EUA com o “neoliberalismo” e a “globalização”, impostos ao mundo: “Nada menos de 30% de nosso crescimento, considerado apenas o período desde que me tornei presidente, se deve a nosso envolvimento positivo e cada vez maior na economia global”, aponta. E mais: relembra que a estratégia trouxe a construção de “um sistema global que (sic, sic) nos tem beneficiado mais (sic, sic, sic) do que a qualquer outra nação”.

Não. Não é a professora Maria da Conceição Tavares falando. É Clinton, relembrando que, graças à vergonhosa abertura de mercados de países como o Brasil, as exportações norte-americanas explodiram, o emprego disparou, a arrecadação de impostos também e, assim, o déficit do Tesouro sumiu. Tudo, nos EUA.

Nos países “escancarados”, como o Brasil, aconteceu o contrário: quebra de indústrias, desemprego galopante, miséria, déficit do setor público. Duas faces da mesma moeda. Agora, os países “quebrados” repensam suas políticas, afastam “lideranças” que se acumpliciaram com os interesses dos EUA, deixam a armadilha neoliberal e tentam reimplantar políticas nacionais.

Eis aí o temor de Clinton. E ele é explicável: apesar de toda a prosperidade dos últimos anos, os EUA são o país mais endividado do planeta, com uma dívida interna de nada menos de US$ 2 trilhões – porque o Tesouro norte-americano sempre teve “rombos”, gastou mais do que arrecadou.

E nas relações com o resto do mundo? Os EUA têm equilíbrio, gastam (importam) menos do que recebem (exportam)? Não. Até hoje, os EUA têm gigantescos rombos na balança comercial, importam mais do que exportam – e esses rombos, acima de US$ 20 bilhões (com b, mesmo) por mês, estão crescendo e crescerão ainda mais se os países “quebrados” reduzirem o escancaramento dos seus mercados às exportações dos EUA. E se os países “quebrados” procurarem aumentar a venda de seus produtos aos EUA – como os “tigres asiáticos” já fizeram.

Um novo ciclo

Clinton está propondo a redução das taxas de juros dos EUA e outros países ricos. Seu argumento “cristão”: o corte ajudaria a economia mundial. Agora, sem risco de inflação, eterno temor dos países ricos.

Mas é lógico que o corte teria uma vantagem menos “cristã”, também: reduziria as despesas do Tesouro norte-americano, com o pagamento de juros sobre os títulos da dívida dos EUA – comprados em larga escala por investidores de outros países, sobretudo o Japão (que detém, financia 25% do total da dívida dos EUA...).

E, claro, juros menores beneficiariam também as empresas dos EUA, nas exportações – e contra as importações... Esse corte nos juros já foi rejeitado, no começo da semana, pelos governos da Inglaterra e da Alemanha. Motivo: suas economias não enfrentam “crises”, têm desempenho satisfatório e a redução nos juros poderia causar aquecimento em excesso, provocando inflação. A Europa não está em crise, não teme “a crise”.

Diferentemente do que se diz, a “crise” não é global. Mesmo os tigres “asiáticos” já aplicaram suas exportações, já fecharam os “rombos” na balança comercial, já se recuperaram da “quebra” provocada pelo “neoliberalismo” – como esta coluna destacou, há duas semanas.

Em resumo: é falsa a impressão, criada pelo estardalhaço em torno das “quedas nas Bolsas”, de que a economia mundial está perto do colapso. O mundo está, apenas, encerrando um ciclo dito “neoliberal”, que beneficiou os EUA. Claro que haverá solavancos, na fase de transição. Mas a “virada” permitirá que os demais países cuidem de seus interesses. É o que Clinton procura evitar. Dourando a pílula. E ganhando foguetes dos eternos beócios.



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