[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Vacina para evitar outro choque

segunda-feira 16 de setembro de 1991


Claro que alguns setores remarcaram preços abusivamente, nas últimas semanas, aproveitando-se da confusão criada pela mididesvalorização do cruzeiro. Mesmo assim, o governo não deve perder a cabeça, voltar a congelar preços ou arriscar novo choque. A principal tarefa do governo, neste momento, seria negociar com os setores indisciplinados e informar corretamente a sociedade, mostrando-lhes que há muito mais onda em torno de uma hipotética explosão da inflação do que a possibilidade concreta de que ela ocorra. Infelizmente, o próprio governo parece ter mergulhado em histeria e se convencido de que a corrida às remarcações é generalizada e só será estancada com novo choque. A realidade não é essa. A queda nas vendas do comércio e indústria ganhou dimensões violentas – e vai impedir novas altas marcantes de preços (vale dizer, vai segurar a taxa de inflação, ou derrubá-la mesmo). Os empresários já descobriram que, desta vez, por reação do consumidor aos baixos preços, a economia não sofreu um processo de “esfriamento” gradativo: da noite para o dia, houve verdadeira “virada” no consumo e na economia. De abril a junho, houve crescimento violento, só agora medido em sua plenitude (estatísticas surgidas na semana passada mostraram um crescimento de 7,7% para o PIB no período, na comparação com o trimestre anterior). A partir de agosto, o quadro se alterou totalmente. A economia imbica para uma recessão, sim – enxergam os empresários -, bem mais acentuada e veloz do que a ocorrida no ano passado. Mesmo sem choque, os preços precisam ser freados. Além disso, há muita incompetência nas pesquisas que mostram uma disparada generalizada de preços nas últimas semanas. Veja-se o caso da manchete, arrepiante, de um grande jornal paulista no último domingo: “Cesta básica sobre 17,9% na semana”, afirmação complementada pela informação de que “Preços dispararam em supermercados na maior alta deste a posse de Collor”. Verdade? Não. Tudo erradíssimo. O resultado apontado pelo jornal não tem nada a ver com custo da cesta básica, é tudo falso desde a origem. Por quê? Acontece que o jornal pesquisa os preços de 21 produtos (na verdade, 21 itens, pois no caso de alguns produtos há coleta de preços para dois tipos, como por exemplo, no caso do arroz, com os tipos 1 e 2, respectivamente). Mas, na verdade, não é uma cesta básica, que reflete o consumo de uma família em determinado período, e sim mera “listagem” de 21 itens. Por quê? A pesquisa não leva em conta quanto uma família consome da cada item, ela só focaliza os preços pagos por unidade do produto, em sua embalagem mais freqüente. Assim, a pesquisa acusa os preços, por exemplo, de um pacote de 5 quilos de arroz tipo 1, mais o custo de um pacote de 5 quilos de arroz tipo 2, isto é, a pesquisa inclui o custo de 10 quilos de arroz, que as famílias evidentemente não consomem em curto prazo. Ao mesmo tempo, a pesquisa traz os preços do leite, mas apenas de um litro, já que essa embalagem habitual do produto – muito embora uma família possa consumir 10 litros, e não só um litro de leite por semana. Em resumo, a pesquisa não reflete nem de longe o custo da alimentação (ou cesta básica) de uma família, já que, repita-se, não leva em conta as quantidades consumidas de cada produto. As distorções criadas por essa falta absurda de critério (e que alimenta manchetes terroristas) são terríveis. No caso da pesquisa citada, a soma dos preços dos 21 produtos da lista passa de Cr$ 11.050 para Cr$ 13.050, em números redondos, com quase 18% de alta. Ora, desses Cr$ 2.000 de alta, nada menos de Cr$ 1.500 se devem a apenas três itens: arroz (de Cr$ 1.650 para Cr$ 2.250), patinho (de Cr$ 1.650 para Cr$ 2.150), e acém (De Cr$ 950 para Cr$ 1.350). Todos os demais 18 itens, somados, sobem apenas Cr$ 500. Conclusão: não houve “disparada” de cesta básica, “a maior desde a posso do governo”. Houve violenta alta concentrada em três produtos, por razões específicas. Não é uma “onda de remarcações”. É um “foco de especulação” (e de mau jornalismo). Que a opinião pública se engane e se apavore com notícias assim distorcidas, entende-se. Mas que o próprio governo caia nessa armadilha é inaceitável. Pode parecer ironia, mas o momento pede paciência à equipe governamental. A reação do consumidor abre caminho à queda de preços. E o final da estiagem também vai, com toda a certeza, provocar uma queda de preços dos alimentos básicos, como arroz, feijão, óleo de soja e carne, além dos derivados de leite (reação da produção, graças à recuperação das pastagens). O ministro Cabrera tinha um plano, de manter a sociedade permanentemente informada sobre as perspectivas dos preços de produtos agrícolas – exatamente porque é seu desejo evitar a ação de especuladores, tradicionalmente, capazes de atribuir, de forma equivocada, o papel de “vilão da inflação” ao produtor agrícola. É hora de executar esse plano, em comum acordo com a equipe econômica. Se o custo da alimentação recuar, a taxa de inflação poderá declinar significativamente. E há condições para isso, sem prejuízos ao produtor. As cotações atuais estão muito acima dos preços mínimos, capazes de assegurar lucros ao agricultor.



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