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  Exportação depende de novos mercados

Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 19 de março de 1982


Qualquer que seja a decisão adotada pelos países da Opep na reunião que hoje se inicia em Viena, o governo brasileiro terá de rever com urgência sua política econômica, sob pena de agravar violentamente a crise que atinge importantes áreas da economia. A estratégia do ministro Delfim Neto de conter o consumo interno acreditando que o crescimento das exportações seria capaz de sustentar a produção industrial e dar empregos, está condenada. A queda nas vendas externas do Brasil, em janeiro último, foi apenas um "sinal de alarme" de uma grande crise que se aproxima, no comércio exterior do País, com reflexos desastrosos para setores que vinham conseguindo evitar a falência de suas empresas graças a alguns avanços no mercado externo. Paradoxalmente, os novos e inesperados problemas que atingem o esforço exportador brasileiro são uma conseqüência dos problemas, também inesperados, e que exigirão algum tempo para serem superados, trazidos à economia mundial pela redução do consumo internacional do petróleo. Para os países da Opep, a redução na sua produção, de 30 para 18,5 milhões de barris diários (de 1977 a 1982), significa a fantástica quantia de US$ 250 bilhões (com b, mesmo) que deixa de entrar em seus cofres - a cada ano. A perda dessa receita, inevitavelmente, coloca os países produtores de petróleo em dificuldades, levando-os a reduzir seus grandes projetos de investimentos: pode-se dizer que as compras dos países produtores de petróleo foram o "motor" da cambaleante economia mundial, nos últimos anos. Desligado esse motor, sobre toda economia mundial, atingindo direta e indiretamente as exportações brasileiras, por três caminhos:

l. Caem as exportações do Brasil para os países exportadores de petróleo - e que vinham tendo peso crescente nas vendas brasileiras.

2. Ficam mais difíceis as exportações do Brasil para outros países, pois as nações industrializadas, que vinham vendendo maciçamente aos países da Opep, passam a disputar com unhas e dentes esses outros mercados, diante da retração dos grandes clientes petrolíferos.

3.Até que a economia mundial se ajuste a esse novo "choque do petróleo" às avessas, os próprios países desenvolvidos deverão enfrentar problemas em seu comércio exterior, diante da queda nas próprias exportações, com efeitos negativos sobre todo o comercio internacional.

No caso do Brasil, um quarto fator deve ser lembrado: dentro da política (correta) de tentar aumentar as exportações através de mercados novos, o País intensificou suas vendas a países da América Latina, como o Chile, e países socialistas, que também enfrentam problemas, no momento, e tendem por isso a reduzir violentamente as importações de produtos brasileiros.

O retrato

A gravidade da situação, aparentemente, ainda não foi percebida pelo governo ou pelos empresários, que tentam atribuir a queda nas exportações, em janeiro, a fatores “conjunturais”. Não faltou, mesmo, um ministro da área econômica tentando minimizar – diante da análise anterior feita pela “Folha” – a importância dos países da Opep como clientes das exportações brasileiras.

Pelos dados oficiais da Cacex (v. tabela), as exportações brasileiras já vêm perdendo ritmo desde 1981, tanto que, até junho, elas haviam crescido 10% em relação a 1980, e, ao final do ano (novembro), a taxa de crescimento se reduzira para 16%. O mais importante, porém, não é isso, e sim o peso que os “mercados novos” passaram a ter no crescimento das vendas externas do País: enquanto as exportações como um todo cresceram apenas 16%, repita-se, as vendas para os países exportadores de petróleo, por exemplo, subiram 81%, ou um bilhão de dólares, com 2,3 bilhões em 1981 contra 1,3 bilhão em 1980. Dentro desse grupo, a Nigéria ofereceu a maior contribuição à expansão brasileira: 177%, liderando as exportações do bloco, com praticamente 700 milhões de dólares. E é a Nigéria, exatamente, segundo todos os analistas mundiais, a que está em pior situação dentro da Opep, ao ponto de, este ano, ter-se tornado devedora dos banqueiros internacionais. Também a Venezuela, com um crescimento de 80%, anunciou há duas semanas a desaceleração de seus planos de investimento, vale dizer, de importações. O México, finalmente, com importações de 600 milhões de dólares em 1981, já no ano passado começara a bloquear a entrada de produtos brasileiros em seu mercado, dentro de uma política de controle das importações.

Dentro do bloco socialista, os principais parceiros também já vêm reduzindo o ritmo de compras no Brasil. A Polônia, que teve que renegociar sua dívida externa e deve 1,4 bilhão de dólares ao Brasil, estabilizou suas compras em 81. A União Soviética, que as aumentara em 90% até junho, chegou a novembro com 72% de expansão. Finalmente, no caso da América Latina, o Chile, responsável por compras de nada menos que 800 milhões de dólares em 81, enfrenta séria crise – e deu início ao controle de suas importações.

Com um crescimento, em conjunto, de 58% (excluídos Irã e Iraque), somente esses “mercados novos” foram responsáveis por 23,5%, ou praticamente um quarto das exportações brasileiras, em 1981 (até novembro).



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