quarta-feira 25 de janeiro de 1978
Para temas sérios, esquecer a veia humorística
Apontado durante anos como um dos mais brilhantes talentos da sua geração, o ministro Simonsen assumiu o Ministério com uma visão de mundo e da economia pouco diferente da que caracterizava seu antecessor. Mal tomava posse, e já autorizava um aumento dos preços da carne, permitindo que pecuaristas e frigoríficos confiscassem mais uma parte da renda do brasileiro – embora os preços do produto desabassem lá fora. Logo depois, autorizava a elevação dos preços do óleo de soja, permitindo que o setor confiscasse outra parte da renda do brasileiro — sob o argumento de que os preços disparavam lá fora. E, para maior similitude com o antecessor, repetia-o também em género: dava-se o luxo de fazer piadas à imprensa, afirmando que o aumento do preço não importava: "O que conta na panela não é o óleo", gracejava, "mas o bife que está dentro dela" – esse mesmo bife cujo preço ele já majorara. Com todo seu arsenal teórico, o ministro não percebeu, em 1974, que, com a crise mundial, os governos dos EUA, Alemanha e Japão estimularam suas multinacionais a desovar gigantescos estoques de produtos encalhados (de fertilizantes a chapas de aço, de máquinas fotográficas a bulbos de TV) em países ingênuos como o Brasil. Enquanto os teóricos brasileiros — da situação e da oposição — teorizavam, afirmando que a dívida externa brasileira crescia por causa da alta dos preços do petróleo, filiais das multinacionais estabeleciam verdadeiros "corredores de importação" de peças, componentes e matérias-primas de suas matrizes, ajudando a reequilibrar a balança comercial de seus países de origem às custas da nação brasileira. Quando o governo brasileiro despertou, procurou conter as importações, através de medidas clássicas dos livros teóricos, ditadas pelo ministro, e, apenas como exemplo, ainda em 1976, a indústria de badulaques eletrônicos aumentava sua produção mas a produção interna de componentes caía 20%, isto é, as filiais suspenderam a produção de certos itens, para comprá-los das matrizes. Se a teorização excessiva não produzia bons frutos na área do balanço de pagamentos, ela malograva igualmente no combate à inflação.
A virada. A esta altura, o ministro Simonsen revelou-se diferente de seu antecessor e admitiu a realidade. Ao iniciar-se 1977, diretrizes básicas de sua política eram alteradas. A teoria foi deixada de lado, e o controle das importações passou a ser feito de uma forma que, antes, horrorizaria o ministro: através de um comunicado da Cacex, a proibição pura e simples de importar uma série de bens supérfluos ou dispensáveis. E não apenas esses bens: também peças e componentes para sua fabricação, vale dizer, o país fechava os "corredores de importação" das filiais de multinacionais. Na área da inflação, colocou-se de lado a teoria monetarista ortodoxa, e surgiram medidas como a restrição do crédito ao consumidor, para conter a demanda de certos bens. Mas a transformação suprema viria com a "inflação do chuchu", a disparada dos preços dos produtos hortifrutigranjeiros, que mostrava ao ministro, de uma vez por todas, que para administrar a economia de um país não basta aplicar a teoria dos teóricos. A partir daí, o combate à inflação mudou de figura, passou a ser feito de muito perto, com atenção à realidade, com medidas preventivas contra a especulação e o surgimento de possíveis focos inflacionários. O ministro mudou tanto, mas tanto, que chegou a protestar, em discurso, contra os "analistas econômicos", que, de tempos para cá, viraram mais teóricos e adeptos da teoria monetarista do que os próprios tecnocratas monetaristas. E que, em lugar de aplaudirem as mudanças na política de combate à inflação (o que fariam, no passado), passaram a criticá-las.
A insistência. Talvez por causa desse aprendizado, talvez por causa da familiaridade nova com os problemas nacionais, o ministro Simonsen é apontado, até pelo marechal Cordeiro de Farias, como um possível "sobrevivente" no Ministério do próximo governo. Se assim for, espera-se que o aprendizado do ministro se complete rapidamente. Espera-se que ele fale a sério sobre as coisas sérias. Que ele não deixe que sua veia humorística obscureça o brilho de seu talento. Que ele, como ministro e professor, se lembre das suas responsabilidades na formação da opinião pública, no esclarecimento da nação, fugindo ao comportamento, adotado até agora, de desinformar, confundir o país com tiradas de efeito, sempre que intervém no debate sobre as possíveis mudanças no "modelo econômico" — e, mais especificamente, em relação à redistribuição da renda. Ele sabe, pois já o disse muitas vezes, que o Brasil fez uma industrialização às avessas, baseada na produção de bens de consumo — e que, por isso mesmo, como era preciso criar mercado para os automóveis e os badulaques de luxo, a política econômica concentrou a renda, deliberadamente, nas mãos de certas faixas da população. Que isso gerou distorções e é — segundo seu próprio diagnóstico — a razão básica dos déficits da balança comercial brasileira, vale dizer, da dívida externa. Ora, para mudar o perfil da indústria é preciso também pensar em criar mercado para os setores que agora seriam incentivados — e isso só se faz através da simultânea mudança no perfil da distribuição da renda. O ministro não pode alinhar-se dentro da corrente retrógrada para a qual o aumento de poder aquisitivo e milhões de brasileiros, hoje marginalizados, provocaria inflação devido ao súbito aumento da demanda, que não seria atendida pela oferta. Basta lembrar que, neste exato momento, em Pernambuco, jogam-se fora 100 mil litros de leite por dia, de um total de 400 mil produzidos. Da mesma forma que sobra feijão no Sul. Como sobrou arroz, maciçamente exportado pelo Brasil – através de subsídios, claro – nos últimos dois anos. O debate em torno da redistribuição da renda está sendo colocado em profundidade. Eventualmente, podem surgir respostas radicais, tolas mesmo. Mas esse é um detalhe, um excesso a descartar. Não se pode tentar anular a própria essência da questão a partir deles. O ministro tem imensa contribuição a dar no esclarecimento da sociedade e na busca dos caminhos correios para o país. Basta que se lembre disso.