Jornal Correio da Manhã , segunda-feira 14 de junho de 1971
Com a corrida à Bolsa, o investidor comum procura informar-se. Saber de ações, conhecer dados técnicos sobre empresas, acompanhar distribuições de rendimentos. Falta alguma coisa? Sim. Teria ele noção de como a ação está sendo oferecida ou procurada, e se tem perspectivas de continuar na mesma tendência? Se grupos fortes realmente “informados” não estão abandonando a ação justamente quando o investidor está entrando? Se o investidor, na hora H, vai saber quando vender e passar para outro papel?
Além do investidor saber como vai a empresa em que está investindo, é importante ter conhecimento de como vai a ação da empresa no mercado. A análise técnica é o estudo das ações no mercado, no jogo da oferta e da procura. A análise fundamentalista é o estudo dos dados técnicos das empresas, e seus reflexos sobre as ações.
Divórcio total?
Ambas são absolutamente divorciadas? Não, na verdade, ambas têm um ponto de partida comum. Admite-se, na análise técnica, que as altas e baixas ocorram justamente porque “alguém” tem o conhecimento de certos fatos sobre a vida das empresas que a maioria do mercado desconhece. Na raiz da procura – ou oferta – do papel por esse alguém ou grupos bem informado, está, portanto, um dado sobre a empresa, sobre sua vida – da mesma forma que na análise fundamentalista.
Mas a análise técnica, que procura revelar essa tendência através dos gráficos ponto-figura pode, no entanto, ir ainda mais além. Ela pode detectar procura (ou oferta) para uma ação com tendência à alta (ou baixa) a partir não apenas de dados concretos, mas mesmo de atitudes artificialmente criadas, no mercado, em torno do papel. Um exemplo?
Barulho da banda
Ainda uma vez Acesita, neste começo de ano que, com um lucro por ação de 0,007 cruzeiro, tem imensa popularidade porque toda uma banda funcionou para que ela se tornasse conhecida de todo e qualquer investidor, levando a um aumento de procura do papel. Na análise fundamentalista, as chances de Acesita ombrear-se com certos papéis, se houvesse comparação, seriam mínimas. Aí ela não poderia subir. Mas, pela análise técnica, baseada em gráficos ponto-figura, fica patente que existe procura para a ação. Existe uma atitude do mercado em relação a ela. E ela poderia subir (como subiu, nestes meses, se bem que menos do que certa faixa do mercado teria desejado).
Advertência, sempre
Cautelosamente, evitou-se, nesta seção de Mercado de Capitais, fornecer ao investidor comum, de imediato, todos os instrumentos em torno da técnica do gráfico ponto-figura, de uso crescente no País graças ao Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais – IBMC , responsável pela formação de técnicos no setor. Pelas próprias características da análise técnica, verifica-se que a alta ou baixa de uma ação mesmo de baixa rentabilidade, vai depender da atuação de grupos. Ora, uma ação “má” pode estar em franca tendência de alta porque um grupo está acumulando-se. No entanto, se, por um motivo qualquer esse grupo resolve colocar o papel de lado, uma baixa pode ocorrer.
Assim, o risco que o investidor comum correria baseando suas compras apenas em gráficos ponto-figura, em tendências de mercado, seria grande. A utilização das informações do gráfico ponto-figura somente deverá ser feita a partir do momento em que o investidor tiver bastante familiaridade com o mercado, acompanhado-se constantemente, sendo capaz de detectar altas ou baixas artificiais. O contato permanente com os gráficos (e com os dados das empresas), nestas páginas, pode levá-lo a esse estágio. Para que pressa, portanto?
As formações
Nos comentários dos gráficos que vêm sendo publicados diariamente ( e que são reproduzidos nos domingos, juntamente com uma análise nova) o investidor vai encontrar palavras como figura, formação, topo duplo, fundo duplo, triângulos, figuras de alta ou catapultas, relacionadas com períodos em que se diz que a ação foi acumulada ou distribuída por grupos informados. O que elas significam?
Através da análise desses gráficos, chegou-se à conclusão que, na maioria das vezes, antes de uma ação ter “subido” ou “caído”, aparece nos gráficos determinado tipos de “figuras”. Essas “figuras” podem criar formações, que, através do estudo estatístico de sua ocorrência, verificou-se que aparecem precedendo uma nova tendência nos preços das ações. Portanto, as diferentes formações podem preceder fatos importantes (novos períodos de alta, novos períodos de baixa) que virão a ocorrer com as ações. Complicado? Melhor um parênteses, para entender a construção e interpretação dos gráficos.