Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 9 de abril de 1998
Governo, empresários e a sociedade como um todo mantêm a expectativa de que “a economia melhore” a partir deste trimestre, graças, sobretudo, à comercialização de safras agrícolas, que injetam dinheiro no interior, aumentando o consumo – e, consequentemente, a produção industrial. A análise fria dos números mostra que a esperança é infundada. A renda resultante das colheitas não será suficiente para “puxar” a economia.
Da mesma forma que são totalmente ilusórias as previsões de que os investimentos nos setores privatizados, como telecomunicações, ferrovias e energia reativarão a indústria e o emprego. É espantoso que, com base em estatísticas, o governo FHC não se aperceba de que a crise já está nas ruas, e é preciso revertê-la. Como é igualmente espantoso que as entidades empresariais não se mobilizem para estabelecer um diálogo com o governo, em busca de uma solução urgente para o país.
Há números realmente apavorantes para mostrar as dimensões da crise que está aí. Em março, na capital paulista, o número de carnês em atraso em um único mês chegou a estonteantes 440 mil – o que significa que, no total, devem existir hoje cerca de 4,5 milhões de carnês inadimplentes em São Paulo.
Esse número, de 440 mil, representa um aumento de seis vezes, ou 500%, sobre a média, de 70 mil, há três anos. Alega-se que o avanço na inadimplência é proporcional à própria expansão no número de carnês. Falso. Veja-se o que ocorreu com os cheques sem fundos: há dois anos, eles estavam na faixa de dois cheques sem fundos para cada mil emitidos. O “calote” foi crescendo, chegou a cinco por mil no ano passado, saltou para oito e agora, em março, chegou a 11 por mil. Aumento, também, de 500% a 600% sobre a média histórica.
Outro termômetro da crise: tradicionalmente, em São Paulo, havia oferta de 1.500 a 2.000 imóveis residenciais para alugar, por mês. No segundo semestre do ano passado, esse número já havia quadruplicado, para 7.000 ou 8.000. Em janeiro e fevereiro, saltou para 11 mil. Agora, em março, chegou aos 13 mil imóveis fechados, à espera de inquilinos. Como prever recuperação da economia com esse quadro nítido de perda de poder aquisitivo da população?
A renda da agricultura não vai apresentar o crescimento previsto. Primeiro, porque há queda na produção de arroz, feijão e milho. Como haverá redução no plantio de trigo neste inverno. Vale dizer: no caso daqueles produtos básicos, o produtor, com menor produção, não terá aumento substancial de renda – mesmo com preços mais altos.
E, aqui, é preciso atentar para uma conseqüência importante, ainda ignorada nas análises econômicas: alimentos mais caros, como já está ocorrendo com a cesta básica, significam novo “peso” no orçamento de milhões de famílias, isto é, menos renda “sobrando” para consumir produtos da indústria.
Na verdade, a anunciada expansão da produção agrícola deste ano está concentrada na lavoura da soja. E, aqui, a frustração da renda é inevitável por causa da superprodução mundial: as cotações vêm caindo continuamente. Há um mês, “analistas” previam um preço de US$ 260 para a tonelada de soja. Ela já está em US$ 230. No interior, a saca do produto era vendida a R$ 19 em dezembro – hoje, oscila entre R$ 12 e R$ 13. Café e açúcar, igualmente, estão em queda no mercado mundial. Esse é o quadro real, pouco animador, da renda agrícola e seus efeitos sobre a economia.
Atenção: é claro que, nestes meses de abril e maio, o aumento mesmo discreto de renda no interior poderá dar algum ânimo às vendas de alguns setores (automóveis, por exemplo). Mas será um fenômeno passageiro, e incapaz de compensar a destruição do poder aquisitivo da população como um todo.
E as “encomendas” dos setores privatizados? O tal “salto” nas compras de material ferroviário é de matar de chorar: no passado, a indústria vendia de 3.000 a 5.000 vagões por ano. Em 96, vendeu algo como 50 (isso mesmo, c-i-n-q-ü-e-n-t-a). No ano passado? Vendeu quase 100 (isso mesmo, c-e-m). Esse o salto de 100%: de 50 para 100...
E as energéticas? Estão importando tudo. E na área de telecomunicações? As multinacionais “fabricantes” estão importando tudo. A tal ponto que a Abinee, entidade empresarial do setor, pediu ao governo que estabelecesse normas para exigir o uso de determinado percentual de peças e componentes eletrônicos fabricados no país até pelas múltis... Proposta do governo, oficializada há três semanas: uso de 5% a 10% de peças nacionais... Grotesco. Assim o governo FHC encaminha o país para uma grande crise.