Jornal Folha de S.Paulo , domingo 21 de julho de 1996
O mês de junho começou com manchetes otimistas: ’’Crediário dá novo fôlego à indústria’’. Ou ainda, ’’Indústria vê sinais de reaquecimento geral’’. Naquele momento, da noite para o dia, lideranças empresariais e formadores de opinião passaram a apontar uma fase de reativação na economia, graças ao afrouxamento do crédito adotado pela equipe FHC/BNDES.
Este colunista divergiu totalmente dessas previsões, reafirmando que a recessão que a economia está atravessando é fruto do achatamento dos salários, vencimentos do funcionalismo e aposentadorias _agravado pelo desemprego.
Surgiram agora, ao longo da semana, estatísticas definitivas sobre o desempenho da economia em junho e primeiros resultados do mês de julho. Elas são até aterradoras e desmentem todas as previsões da equipe FHC/BNDES e acólitos sobre queda de inadimplência, menor desemprego, maiores vendas, saldo positivo na balança comercial _e inflação menor.
* Eletroeletrônicos - Vinham batendo recordes de vendas, com as prestações de R$ 25 a R$ 30 mensais. Em junho, as vendas da indústria ao comércio caíram 10% no caso da linha branca e 4% para imagem e som. Estoques.
* Consumidor - Dados ainda provisórios revelam espantoso salto na inclusão de consumidores na lista de negativos, inadimplentes, do SPC de São Paulo. Na primeira quinzena de julho, o triplo do resultado de junho. Que já era o triplo dos números de 1994. Começam a surgir os efeitos da ’’liberação’’ do crediário e aceitação de cheques pré-datados.
* Falências - Subiram em junho. E, no semestre, a média mensal já era três a quatro vezes superior à de 1994 (1.270 contra 350).
* Automóveis - As vendas das montadoras às concessionárias despencaram para 111,7 mil em junho, contra 130 mil há um ano. E os estoques das revendedoras são recordes: 86 mil, o triplo do nível normal.
* Rombo - Para coroar, as exportações caíram, e as importações voltaram a superar o seu valor. Como esta coluna previu, o ’’rombo’’ da balança comercial é inevitável.
Perguntinha: a equipe do governo FHC tem errado sistematicamente em suas previsões. Como diria o confrade Japiassu: ela tem mesmo competência para dirigir a economia do país?
A equipe FHC/BNDES continua a ter explicações otimistas para todos os problemas. Com essa atitude de Poliana, não faz alterações na política econômica. A sociedade paga.
’’O déficit da balança em junho já era esperado’’, diz o ’’subministro’’ da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros. Verdade? No mês passado ele afirmava: ’’A expectativa é que o comércio exterior tenha desempenho muito favorável’’.
’’A meta de crescimento de 1996, de 15% a 16% sobre 1995, será alcançada.’’ Declaração de diretores da Anfavea, associação das fábricas de veículos, em 11 de junho. Agora? ’’Serão produzidos 1,8 milhão de veículos, ou 10,8% a mais do que em 1995’’. Revisão, na surdina, em 6 de julho.
Ao reajustar o salário mínimo e as aposentadorias em maio, a equipe econômica FHC/BNDES previa inflação abaixo de 1% ao mês no segundo semestre. Na primeira semana de julho, ela bateu em 1,67% em São Paulo. Rever o salário mínimo, aposentadorias e vencimentos do funcionalismo não é demagogia eleitoral. É uma forma de dar algum alento à economia.