Jornal Folha de S.Paulo , domingo 2 de junho de 1996
A recessão vai agravar-se, destruindo setores industriais inteiros e desempregando mais alguns milhões de brasileiros. Esta, a promessa que o presidente da República e sua equipe voltaram a fazer, nos últimos dias.
Tragicamente, o governo FHC insiste numa política econômica que é um beco sem saída, ressuscitando a imagem do "cachorro tentando morder o próprio rabo". Passo por passo, vale mostrar suas contradições. Taxa de juros - O governo anuncia que vai mantê-las a níveis escorchantes. Objetivo? Evitar que o consumo cresça e "a economia se aqueça". Por quê?
Inflação e dólar - Até há pouco tempo, o governo dizia ser preciso segurar o consumo para evitar a volta da inflação. Agora, está confessando seu verdadeiro alvo: evitar que o consumo cresça, porque _alega_ o aumento da produção industrial provocaria um aumento nas importações de matérias-primas, peças. E daí?
Rombo - Com o crescimento das importações, faltariam dólares para pagá-las e para atender outros compromissos do país com o exterior (juros da dívida externa, remessa de lucros pelas multinacionais e especuladores do "jogo de ganhar juros" etc.).
Dólar - Com a falta de dólares, surgiria uma série de perigos para a economia. Os especuladores perceberiam as dificuldades, como aconteceu no México, e começariam a levar seus dólares de volta. Crise - Detonada a crise, o governo seria forçado a aumentar a cotação do dólar, desvalorizar o real, provocando encarecimento das importações _e, portanto, inflação. Isso não seria tudo: viria um novo "arrocho" para a economia, com o objetivo de conter o consumo e, novamente, as importações.
Assim exposto, o raciocínio do governo FHC parece correto. Dá a impressão de que a política de recessão, juros altos e contenção do consumo é uma estratégia desagradável _mas a única possível para o país. O raciocínio é falso. Peca pela base.
Por quê? Hoje, o crescimento das importações não tem nada a ver com o aumento do consumo ou da produção industrial. As importações estão crescendo por causa da alucinada "política industrial" do governo FHC. A pretexto de facilitar a "modernização" das empresas e reduzir os custos, houve corte de impostos e abertura do mercado nacional para matérias-primas, peças e componentes que eram produzidos no país. Há fábricas de móveis do Paraná importando madeira. Como há fábricas de eletrodomésticos importando metais. Ou tecelagens importando algodão (desempregando meio milhão de pequenos lavradores do Nordeste).
Por toda a parte, destruição de empregos, destruição de patrimônios de empresários, isto é, destruição da poupança acumulada durante décadas pela sociedade, à custa de toda a sorte de sacrifícios e renúncia a serviços essenciais como saúde _ou simplesmente ao direito de alimentar-se. Comer.
O país vive um momento grave. Está encurralado por uma política absolutamente contraditória, um samba do crioulo doido. Empresários e trabalhadores, classe média e povão, estão condenados a juros altos, salários achatados, recessão _para evitar o aumento das importações. Mas o aumento das importações e da "torra de dólares" são provocados pela própria política econômica.
Nas décadas de 70 e 80, o Brasil enfrentou recessões, segurou o consumo e a produção, porque era dependente de importações, e não tinha dólares suficientes para pagá-las: petróleo, aço, fertilizantes, papel _e máquinas e equipamentos para montar fábricas, usinas. A sociedade apertou o cinto, investiu e passou a produzir todos esses bens. Hoje, aceita passivamente que tudo seja destruído.