Revista Visão , quarta-feira 19 de junho de 1991
Com caras de parvos, analistas, ex-ministros, líderes empresariais e sindicais constatam que a inflação tem caído semana se amaná, desmentindo todas as suas previsões pessimistas. Como explicar as taxas declinantes, mesmo com o “tarifaço” de fevereiro, a alta dos hortifrutigranjeiros, a alta do vestuário e, finalmente, o início do descongelamento promovido pela ex-equipe econômica – que a desonestidade intelectual que impera no país finge que não existiu? “Hoje, fala-se em “início” de descongelamento.
No entanto, o que se omite é que, já em abril/maio, a equipe econômica anterior havia promovido uma rodada completa de reajustes de preços, nas câmaras setoriais – e a taxa de inflação continou a cair). Existe uma explicação, sim, e ela é simples – embora reflita uma verdadeira “revolução” para a economia do país. As taxas de inflação estão caindo pelo fato puro e simples de que, finalmente, com o segundo “choque” do governo Collor, conseguiu-se “desindexar” a economia brasileira – e pode-se usar o exemplo dos próprios hortifrutigranjeiros para comprovar essa afirmação. Em abril, como se sabe, os preços das verduras e legumes acusaram altas de até 300%, devido ao excesso de chuvas na região Sul/Sudeste, e elas puxaram as taxas de inflação para cima.
Passada a chuvarada e os eus efeitos, os preços daqueles produtos voltaram a declinar e, nas últimas semanas, contribuíram para reduzir a taxa de inflação. Pode-se perguntar: não foi sempre assim? Qual é a grande novidade que existe nessas altas e baixas, afinal? Há uma diferença – e grande. Quando existia a correção monetária, o reajuste automático de preços e salários, a alta de preços dos hortifrútis (tomados como exemplo, embora haja centenas de casos iguais), apesar de temporária, tinha efeitos permanentes sobre a taxa de inflação, puxando-a sempre para cima. Como assim? É simples: suponha-se que a taxa de inflação para toda a economia estivesse na faixa dos 5% e, de repente, a disparada dos preços dos hortifrútis representasse, sozinha, mais 3 pontos percentuais de aumento nos cálculos do índice, levando-o para 8%. Quando existia a correção monetária, o que acontecia? Todos os produtos, serviços e salários eram aumentados com base naqueles 8% de inflação: de automóveis a consultas médicas, da cotação oficial do dólar às prestações da casa própria. Isso significa que, com a correção monetária, também os 3% de alta dos hortifrútis eram incluídos, para sempre, nas taxas de inflação dos meses seguintes, pois eram aplicados, via correção, a todos os preços. Assim, quando os preços dos próprios hortifrútis caíam, num momento seguinte essa queda representava um recuo mínimo, em comparação com as altas que haviam sido provocadas em toda a economia – e, por isso, a taxa de inflação continuava a subir. Desta vez, isso não aconteceu – devido ao congelamento/tabelamento de preços que o governo vem mantendo, rejeitando a indexação à moda antiga. Assim, os hortifrútis subiram em abril/maio, mas a alta não foi incluída automaticamente a outros preços, isto é, não teve os efeitos multiplicadores sobre a taxa de inflação.
E, na etapa seguinte, quando os preços daqueles produtos começaram a recuar, ocorreu o que acontece nos demais países onde não há correção monetária: o declínio passou a “cancelar” os efeitos (circunscritos) da alta anterior, puxando a taxa de inflação para baixo. A desindexação, a extinção da correção monetária, funcionou, está funcionando. Somente a mentalidade irresponsável de determinados analistas e líderes empresariais e políticos é que lhes permite negar que houve uma desindexação efetiva da economia, nos últimos meses. Somente a tradição de irresponsabilidade também é que lhes permite dizer que a extinção da correção monetária é mero jogo de aparências e que a nova equipe econômica reconhece que a realidade é outra, tanto que já estaria promovendo a reindexação. Na verdade, ao manter as câmaras setoriais, o governo reafirmou sua política de extinção da correção monetária pois, ali, as empresas só obtêm reajustes de preços provando os aumentos de sues próprios custos – isto é, ninguém pratica aumentos com base na taxa de inflação (provocada por itens que as empresas não utilizam, como os hortifrútis).
O mesmo espírito, de rejeitar o índice de inflação gera como base para reajustes, está presente na decisão de permitir a revisão dos valores de contratos de fornecimento de bens ou serviços, com base na alta dos índices de cada setor, já que eles refletem os custos apenas daquele setor e não a inflação geral (dos hórtis). Há poderosos interesses defendendo a volta da indexação, jogando-se no lixo os avanços conseguidos até agora. Lideranças empresariais e sindicais deveriam tomar, com urgência, posições contra esse poderoso lobby. Entidades como a Fiesp sabem que, com a queda da inflação, possível sem a indexação, a economia poderia finalmente retomar sem definitivo o caminho do crescimento - sem novos recuos mais à frente.
Quando à CUT e outras entidades sindicais, precisariam encarar a realidade e deixar de lado as propostas de compensação imediata de “perdas salariais”, que refletem uma mentalidade pró-indexação. As lideranças sindicais precisam enxergar que o melhor caminho para a reposição salarial é o crescimento da economia. Isso ficou comprovado mais uma vez em abril último, quando o início da recuperação da indústria provocou uma alta real (já descontada a inflação) de 11% no salário real médio, em São Paulo. Combater o lobby da reindexação para derrubar de vez a inflação é o novo caminho a ser trilhado.