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  Um país contra o muro: eis novas provas

Revista Isto É , quarta-feira 25 de outubro de 1978


Estariam o open, a especulação financeira, com seus dias contados? Um grande jornal paulista, que, em matéria de política econômica, sempre fez parte da "copa e cozinha" do ministro da Fazenda, diz em editorial que as autoridades perderam o controle da política monetária. E o próprio Palácio do Planalto estaria com suas atenções voltadas para o tema. Ninguém solte, porém, foguetes antes da hora. O sistema financeiro brasileiro, desde os tempos do "milagre" – quando foi a base política do ministro da Fazenda –, tem demonstrado uma imensa capacidade de fingir arrependimento, mostrar-se bem-intencionado, quando surgem as crises. Desta vez é preciso cortar o mal pela raiz.

A falsa calmaria. É incrível, mas a imprensa continua a tratar o open e as autoridades monetárias como se fossem uma coisa séria: e é por isso mesmo que a opinião pública, classes empresariais que produzem e até governantes raramente avaliam todos os malefícios que a especulação financeira traz à economia do país. Durante a última semana, após a "quebra" das distribuidoras Trade e Tema, esperava-se uma grande crise — e sobreveio, segundo os jornais, "grande calmaria", com as taxas de juros caindo para até 1,2% ao mês. Segundo o noticiário, as "quebras" teriam tornado o mercado mais cauteloso, menos especulativo. Tudo falso, tudo ao contrário da realidade. Assim como o "caso Trade" serve de prova para demonstrar que o open continua a funcionar fora da lei, baseado nos "compromissos de recompra" e da "corrente da felicidade", essa calmaria serve para provar como o governo e o país têm sido encurralados contra o muro, pelo mercado financeiro. Como assim? Os juros estiveram baixíssimos no open, durante a semana, porque as autoridades monetárias, através do Banco Central, "socorreram" o mercado, isto é, injetaram alguns bilhões de cruzeiros no open. Com o dinheiro farto, os juros cobrados no open caíram violentamente, em benefício dos especuladores, lançando as sementes de nova crise, daqui a alguns meses. Eis os desdobramentos e as consequências do socorro ao open:

1- Emissões. Os deputados e a opinião pública se escandalizaram quando se soube que o governo aplicou mais de 20 bilhões de cruzeiros nas tentativas de salvamento de instituições financeiras que acabaram quebrando (casos Halles, UEB/Ducal etc). Ora, já se disse aqui que essa cifra, embora çstarrecedora, é o de menos, em matéria de prejuízos causados pelo open à economia nacional. Ela é apenas a parte visível, concreta, a ponta do iceberg fora d’água, dos malefícios da especulação financeira. O mal maior — já se disse aqui várias vezes — são os fracassos que ele traz à política monetária, ao combate à inflação — e a sangria do Tesouro. No caso presente, está se repetindo o que aconteceu dezenas de vezes nos últimos anos, sem que o país tomasse pleno conhecimento do problema. Depois da quebra da Trade e da Tema, outras instituições deveriam seguir o mesmo caminho. Seria a desmoralização do open — e das autoridades monetárias. Então, o Banco Central "emite" bilhões de cruzeiros para que os juros caiam, e as instituições em dificuldades, que vinham tendo prejuízos, tenham lucros e "ajeitem" sua situação. Em resumo: os 20 bilhões de cruzeiros são um dinheiro aplicado diretamente no "socorro" a instituições — e ao open. Mas há o socorro indireto, para que instituições não quebrem, representado por essas emissões.

2- A nação perde. Assim, o crédito "racionado" para as empresas, a pretexto de combater a inflação, subitamente é ampliado, "estoura" – só dentro do open, onde as taxas caem a 2% ao mês. Nos bancos e financeiras, os juros cobrados às empresas e ao consumidor continuam de 60 a 220% ao ano. Crédito, dinheiro barato, só para especular. E para realimentar a inflação.

3- O descontrole. Ora, o Banco Central vem elevando as taxas de juros pagas aos compradores de Letras do Tesouro Nacional, hoje rendendo mais de 50% ao ano, pagos pelo Tesouro, isto é, por todos nós. O ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central alegam que é preciso pagar esses rendimentos escandalosos, e é com a venda de LTNs que o governo tira dinheiro de circulação, e essa é a forma de atrair compradores (as mesmas instituições e grandes empresas que especulam no open). Mas, quando surgem "crises" no open, o governo injeta os bilhões no mercado.

4- Quadratura do círculo. Qualquer um pode entender, a esta altura, que o governo está prisioneiro do mercado financeiro. O jogo de ganhar juros é um crime perfeito, neste encadeamento: surge uma crise no open; o governo despeja bilhões no mercado, para "superá-la"; depois, precisa recolher esses bilhões, através da venda de LTNs; o sistema financeiro finge que não quer comprar as LTNs, e o Banco Central eleva os juros desses títulos; aí, os banqueiros dizem que, se as LTNs estão rendendo tanto assim, também têm que pagar juros mais altos para atrair compradores de letras de câmbio e certificados de depósito a prazo — e cobrar juros mais altos das empresas; aí, para fazer frente aos juros das letras de câmbio e certificados, o Banco Central volta a elevar os juros das LTNs; aí, aí, é isso que está aí.

5- Cartas marcadas. Falta um dado para entender a extensão do "crime perfeito" — e provar mais uma vez que o país está encurralado. Quando o Banco Central injeta dinheiro no open, as taxas de juros caem — até a 2% ao mês. Esse dinheiro barato tem por finalidade "safar" as instituições em dificuldades, isto é, que formaram "carteiras de títulos" acima de suas possibilidades. Mas ele está à disposição de todo mundo: grandes conglomerados e instituições que não estão em dificuldades. Ainda. Então, também esses conglomerados e instituições aproveitam para tomar novos empréstimos no open e comprar ainda mais títulos. Um "negócio da China": empréstimos a 2%, para comprar papéis que rendem 4%. Todo mundo aproveita a chance e compra títulos à larga. Acima de suas possibilidades. Semanas depois, quando cessa o "socorro" do Banco Central, as taxas de juros no open voltam a subir. Quem comprou títulos com dinheiro emprestado a curto prazo tem que devolver esse dinheiro e tomar novos empréstimos no open – agora a taxas altíssimas. Surgem os prejuízos, as ameaças de quebra. E o Banco Central volta a emitir, para ajudar o mercado. E depois volta a tentar vender LTNs, a juros cada vez mais altos. E tudo recomeça de novo. É o open, a especulação financeira, devorando a nação.



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