[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto Como mostrar à sociedade que o ministro Delfim Netto está cometendo um novo e falso milagre?
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  O que vem por aí

Revista Nova , agosto de 1982


O comércio vendendo mais, o desemprego caindo, a indústria aumentando a sua produção. As pessoas respiram aliviadas, sentindo-se finalmente livres dos pesadelos que marcaram o ano de 1981.

Ninguém gosta de ser desmancha-prazeres, e perturbar a tranqüilidade dos outros. Mas, infelizmente, exatamente neste momento é preciso avisar:

- Cuidado, não se deixe enganar pelas aparências. Planeje bem sua vida, pense bastante antes de assumir compromissos, não descuide de poupar, zele pelo seu emprego. E não se esqueça de, você mesma, dar esses conselhos a seus familiares e amigos.

Por que toda essa cautela, essas advertências, num momento em que a economia parece engrenar de novo? Porque novos tempos difíceis, de “cintos apertados”, devem vir pela frente – e é bom estar preparado para enfrentá-los.

O que está acontecendo afinal? É simples: por causa da situação mundial, o problema da dívida externa, da falta de dólares para o Brasil pagar as prestações dessa dívida e as importações, está se agravando rapidamente. Mais cedo ou mais tarde, por causa dessa falta de dólares, o governo terá que adotar política semelhante à de 1981: para reduzir a importação de matéria-prima, peças, componentes usados pelas indústrias brasileiras, haverá necessidade de tomar medidas para reduzir a produção industrial, “esfriar a economia”, como dizem os especialistas, voltando-se a uma situação de “crise” e menos empregos, semelhante à do ano passado.

Quando isso deverá acontecer? Alguns economistas acham que já no mês de abril o governo deveria ter explicado a situação ao povo brasileiro, e proposto uma política de austeridade, evitando que o problema se agravasse – e, no futuro, provocasse uma crise muito maior. Acontece que essas medidas são impopulares, e isso se refletiria nas eleições de novembro. Por isso, segundo esses economistas, o governo tenta ganhar tempo, adia a volta aos “cintos apertados” para o fim do ano, para depois do pleito. Muitos não acreditam, porém, que se consiga adiar o problema por tanto tempo.

A situação mundial se agravou por causa de um fenômeno a que poucos analistas deram atenção, e que já foi explicado nessa coluna.

Com a queda no consumo mundial de petróleo, e aumento de sua produção nos países importadores (como o Brasil), os países exportadores de petróleo sofreram violentos cortes nas suas exportações, e estão perdendo bilhões de dólares, por causa dessa nova tendência.

Assim, eles estão sendo obrigados a cancelar ou reduzir o ritmo de execução dos seus programas de investimentos: construção de ferrovias, usinas, pólos petroquímicos, siderúrgicas, fábricas diversas – e que representam grandes encomendas às indústrias dos países ricos e mesmo em desenvolvimento, como o Brasil.

Em poucas palavras: os países exportadores de petróleo, agora sem dólares, reduziram as importações de máquinas (e até de artigos como eletrodomésticos ou alimentos) dos outros países. Com isso, esses outros países sofreram uma queda na produção – e também reduziram as suas importações – e assim sucessivamente com reflexos em cadeia, numa verdadeira bola de neve dentro da economia mundial.

Esse quadro mundial atingiu duplamente o Brasil: de um lado, as exportações vêm caindo, e atingiram só 8 bilhões de dólares até maio, quando deveria alcançar 28 bilhões de dólares até dezembro.

De outro, diante da estagnação mundial, as multinacionais que pretendiam executar projetos aqui no Brasil, trazendo dólares, também vêm adiando seus planos.

Não estão entrando, portanto, nem dólar-exportação, nem o dólar-investimento – e o país precisa deles para pagar a dívida e as importações que permitem o funcionamento de sua economia (inclusive o petróleo).

Como não existe a possibilidade de a economia mundial melhorar a curto prazo, o Brasil está caminhando para uma crise. Essa crise é provocada por sua dívida externa.

E não poderá fugir a uma nova fase de “cintos apertados”. Prepare-se para ela.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil