Jornal Diário da Manhã , quinta-feira 4 de agosto de 1994
A gente anda pelas ruas, ouve a conversa do povão e vê que o brasileiro está orgulhoso “porque o real está valendo mais do que o dólar”. A crença popular foi reforçada, durante a semana, com as medidas anunciadas pelo Governo para tentar “puxar” para cima o preço do dólar, pois sua queda estaria provocando prejuízos às empresas exportadoras. “Vejam só, o Governo brasileiro tentando salvar o dólar...” – é um comentário freqüente. No ar, uma sensação de que, finalmente, o mundo, ou pelo menos os EUA, se curva diante do Brasil...
Há muita coisa que não está sendo explicada à opinião pública, desde o lançamento do real. Salários, explosão de vendas, taxas de juros, emissões de dinheiro são alguns problemas que valem a pena dissecar, para entender “o outro lado” do real. Por ora, basta analisar o comportamento do dólar e das taxas de juros.
Dólar – há mais de dois anos, uma “enxurrada” de dólares começou a entrar no Brasil. A imprensa diz que isso se deve à “recuperação da confiança no Brasil.” Não é nada disso. Na verdade, erradamente, o Governo criou formas artificiais de atrair os dólares. Primeira distorção: estabeleceu facilidades incríveis para que os investidores estrangeiros trouxessem dólares para aplicar nas bolsas de valores no País. Segunda distorção: o Governo, através do Banco Central, “puxou” as taxas de juros para níveis incríveis, enriquecendo bancos e grandes aplicadores no mercado financeiro e empobrecendo o Tesouro Nacional e os Governos estaduais, sangrados por juros incríveis, pagos sobre sua dívida interna. Já descontada a inflação, esses juros chegaram a ser até 10 vezes (ou 30 vezes, em determinados momentos...) superiores aos pagos aos investidores nos países ricos. Resultado: esses investidores trouxeram seus dólares para o Brasil, para ganhar fortunas em juros (às custas do Tesouro, dos Estados e da sociedade). A “enxurrada” de dólares, assim, tem sido totalmente especulativa, com dinheiro vindo do exterior para lucrar no cassino dos juros – e que pode voltar para o exterior de uma hora para outra.
Pepineira – uma terceira distorção provocou a “enxurrada” de dólares. O Governo criou uma “pepineira” para as grandes empresas: elas podem receber milhões de dólares do exterior e aplicá-los no mercado financeiro para lucrar, mais uma vez, com os juros altos. Como isso é feito? Antigamente, as empresas que fossem exportar podiam receber o pagamento de suas vendas ao exterior, antes mesmo de embarcar suas mercadorias, mas, para evitar fraudes, tinham que apresentar os contratos assinados com o importador, lá fora. De uns dois anos para cá, começou a maroteira: destas empresas declararem a mera “intenção” de explorar e, só com isso, já têm o direito de receber os dólares e aplicá-los na ciranda dos juros. E depois, se não exportarem? Fica tudo por isso mesmo. Um alto negócio para as empresas.
Queda do dólar – após o lançamento do real, o dólar oficial caiu, e tem ficado em torno de 90 centavos. Pouca gente entendeu ainda que essa queda tem sido até certo ponto um truque do Governo. Por quê? Porque, ao “deixar” o dólar cair uns 10%, o Governo, ao mesmo tempo, elevou as taxas de juros. E o truque é exatamente esse: as empresas passaram a receber menos 10% pelos seus dólares, mas – atenção – elas não têm prejuízo coisa nenhuma. Ao contrário. Como as empresas podem receber dólares simplesmente dizendo que vão exportar, elas aplicam esse dinheiro a juros mais altos no mercado financeiro e ainda ganham a diferença.
Juros – o que é importante nessa história toda? Que os juros reais vão continuar indecentes, altíssimos – para compensar a “queda” do dólar... Em resumo: o Tesouro, os Governos dos Estados, as empresas que não participam da mamata do “adiantamento” de dólares, o consumidor – toda a sociedade, enfim – vai continuar sendo explorado pelos juros altos, para compensar a queda do dólar...
Prejuízos – a “enxurrada” de dólares tem obrigado o Governo a emitir bilhões de reais. Houve uma explosão nas emissões, que, já em agosto, ultrapassaram o teto previsto para o final de setembro. Isto, novamente, tem um preço terrível para todos os brasileiros, porque o Governo, para retirar cruzeiros de circulação (emitidos para comprar dólares de que o País não precisa...), vende títulos, isto é, aumenta sua dívida interna (enquanto o Governo corta verbas para a Saúde, aposentadorias, achata salários do funcionalismo etc.). Por tudo isso, o Governo resolveu tomar medidas na última semana para combater a “sobra” de dólares. Em parte, para “puxar” o preço do dólar para cima. Mas o objetivo principal é controlar as emissões de dinheiro, feitas para comprar os dólares.
Viva o FMI – a “enxurrada” de dólares, portanto, se deve a três fatores principais, como explicado até aqui: facilidades para os especuladores aplicarem nas bolsas e no mercado financeiro; facilidades para as empresas receberem dólares, antes mesmo de exportarem; e juros altos, que atraem os especuladores mundiais. Se o Governo quisesse segurar a “enxurrada” de dólares, bastaria mudar as regras e com isso tornar menos atraente a entrada de dólares, certo? Acontece, porém, que o FMI, o Governo dos EUA e outros países ricos impuseram regras aos países em desenvolvimento, como o Brasil (regras, diga-se desde já, que os países ricos não obedecem). Por essas regras da chamada “cartilha neoliberal”, o Governo não deve impedir que o mercado funcione livremente, isto é, não deve criar dificuldades aos especuladores internacionais e locais. Então, o que o Governo brasileiro fez? Ao invés de atacar a entrada de dólares, o Governo resolveu estimular a saída, a gastança dos dólares. Pelo menos essas medidas absurdas qualquer cidadão, mesmo sem conhecimento de economia, pode entender: primeira: empresas brasileiras foram autorizadas a comprar imóveis no exterior (Miami?), e segunda: as empresas, ao importar, não precisam mais apresentar documento, ao Governo, provando que os preços que estão pagando são justos. Isto é: a filial de uma multinacional pode importar peças da matriz por um preço de 100 dólares por peça, e o Brasil perde esse dinheiro. Bilhões de dólares, no final das contas, remetidos disfarçadamente para a matriz. E mais: a matriz, com o superfaturamento, aumenta seu lucro lá fora – e paga mais Imposto de Renda ao Governo de seu país. A filial, aqui no Brasil, apresenta até um prejuízo (ao declarar um custo artificial para as peças) – e não paga IR ao Governo brasileiro.
Em resumo: o Governo brasileiro começou uma “torra” de dólares, ao estimular gastos no exterior – e até fraudes na remessa de moedas. A política, além disso, é arriscada – porque os dólares que têm entrado no País são sobretudo especulativos, e podem voltar para o exterior a qualquer momento. O Brasil é prisioneiro da “cartilha do FMI” e do Governo dos EUA. Ao contrário de que muita gente pensa, não é Washington que se curvou diante do Brasil...