Jornal Diário Popular , quinta-feira 2 de março de 2000
Os preços internacionais do petróleo, que haviam chegado a mais de US$ 35 o barril, já começaram a cair, depois que os países exportadores concordaram em aumentar a produção para haver maior equilíbrio entre a oferta e o consumo do produto, no mundo. Mesmo com esse acordo, porém, o limite mínimo previsto pelos produtores é de US$ 20 o barril — ou eles voltarão a cortar uma fatia do fornecimento. Em outras palavras, na melhor das hipóteses, o petróleo continuará a ser vendido por um preço que representa um aumento de 100%, isto é, o dobro do valor de US$ 10 que o barril estava alcançando no começo do ano passado, antes da grande ‘‘disparada’’. Esse nível continuará representando portanto um aumento brutal nos gastos, em dólares, dos países ricos, que são todos grandes importadores do produto, por terem uma baixa produção de petróleo — e que, ao contrário das mentiras repetidas nos últimos anos, é essencial para a sobrevivência dessas nações. ricas. Por que?
Porque — grave bem na memória essa informação — os países ricos praticamente não têm rios que ofereçam condições para a instalação de usinas geradoras de energia elétrica, que por isso mesmo é produzida em usinas movimentadas por combustíveis. O aumento violento nos gastos com petróleo provocará problemas para a economia dos países ricos, e principalmente dos EUA, que já vêm apresentando um ‘‘rombo’’ inacreditável em sua balança comercial (exportações menos importações): nada menos de US$ 28,5 bilhões em fevereiro último. Em um mês. Isso significará novas fases de turbulências na economia mundial, com tremores também nas Bolsas de Valores e mercado financeiro internacional. Com toda a certeza. Você vai ver a volta de previsões sobre uma ‘‘grande crise mundial’’, com efeitos terríveis para o Brasil. Não se assuste com esse catastrofismo todo. Essas análises são caolhas, isto é, enxergam apenas um dos lados da questão.
Como assim? É verdade que os países ricos enfrentarão problemas. Mas, em compensação, do outro lado da mesa, os países exportadores de petróleo estarão recebendo mais e mais dólares — que irão gastar em planos de investimentos, voltando a apresentar crescimento econômico, com mais emprego, mais renda, mais consumo para sua população. Vale dizer, eles deverão usar os dólares para aumentar suas importações de mercadorias, máquinas, alimentos.
Quem são eles? Países como a Venezuela, Equador, Nigéria, Angola, Arábia Saudita, Irã, Iraque, e, finalmente, a Rússia, que representa um imenso mercado consumidor. O Brasil poderá aumentar suas exportações para todos esses países — que, ao contrário dos EUA e Europa, não impõem barreiras, não impedem a entrada de mercadorias brasileiras em seu mercado. Poucos analistas se deram conta, ainda, mas a nova ‘‘crise do petróleo’’, é um reforço inesperado para a economia brasileira: o aumento nas exportações de alguns setores industriais brasileiros, já é uma conseqüência dessa mudança. Ela explica, por exemplo, o aumento na produção de automóveis, e até recontratações anunciadas pelas montadoras.