Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 21 de outubro de 1983
Quem conhece este País, já sabe qual vai ser a cantilena dos próximos dias, semanas ou meses: “A classe média está sendo esmagada”, a “classe média” está sendo sacrificada pela nova lei salarial (decreto 2.064). Essa ladainha começou a ser entoada em 1979, quando a política salarial começou a prever aumentos salariais maiores para quem ganhava menos, “achatando” os salários mais altos através de reajustes abaixo do INPC. Na verdade, o que nunca ficou claro para a opinião pública – e nem para os empresários, analistas, entrevistáveis de todos os tipos – é que esse achatamento na verdade era mínimo, devido à forma (explicada na página 7 deste jornal) de calcular reajustes, por “fatias” de salário. Ontem mesmo se via o espanto – pela televisão – dos comentaristas que diziam de boca cheia que “quem ganha 40 salários mínimo vai ter só 30% do INPC”, o que para um INPC de 64% representaria um reajuste de apenas 19,2%. Não é nada disso.
Quem ganha 40 salários mínimos, vai ter uns 90% de INPC para a fatia do seu salário equivalente a 10 salários mínimos (conforme mecânica explicada na página 7) e vai ter uns 80% do INPC para a “fatia” seguinte, equivalente a mais 10 salários mínimos (faixa de 10 a 20 salários mínimos), e assim sucessivamente.
O novo decreto, na verdade, traz até novas “garantias” aos profissionais da classe média, de faixas salariais mais altas. É bom lembrar que em todas as leis salariais anteriores, a previsão de reajuste obrigatório do salário ia somente até a faixa de 20 salários mínimos. Os reajustes, dessa faixa para cima, dependiam da negociação entre assalariados e seus patrões – e que passaram a funcionar contra o assalariado, com o avanço da recessão e conseqüentemente enfraquecimento do mercado de trabalho, que deram condições às empresas de impor reajustes insatisfatórios. Agora, com o 2.064, os reajustes obrigatórios – mesmo que representam apenas uma parcela do INPC – vão até 40 salários mínimos, contra os 20 salários mínimos anteriores.
Dois outros lados precisam ser lembrados para esvaziar a cansativa cantilena do “esmagamento” da classe média que vem por aí: a elevadíssima inflação deste ano decorre, basicamente, da disparada do custo da alimentação, que está acima dos 200% nos últimos meses, pelos índices oficiais. Ora, é sabido que o custo da alimentação pesa proporcionalmente muito menos para a classe média do que para os assalariados de ganho mais baixo. Assim, os reajustes de 90% do INPC para quem ganha até dez salários mínimos, e de 80% do INPC para quem ganha até 20 salários mínimos, representam uma perda menor, de poder aquisitivo, do que ocorreria se a alta do preço se tivesse concentrado em bens ou serviços efetivamente consumidos pela classe média.