Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 5 de maio de 1983
Ao anunciar um superávit de US$ 60 milhões na balança comercial brasileira, em abril, o ministro Delfim Neto foi extremamente sarcástico em relação a determinada corrente de economistas de oposição, criticando suas afirmações de que “as exportações brasileira não podem crescer” e a sua proposta de substituição do “modelo exportador” por um “modelo voltado para o mercado interno”.
Em relação ao comportamento das exportações brasileiras, não se pode deixar de dar razão ao ministro. Predomina ainda, naquelas correntes de economistas, uma visão rançosa da economia mundial, desenvolvida na década de 50, no pós-guerra - e que era correta na época. No entanto, trinta anos depois, com todas as alterações ocorridas na economia mundial, esse tipo de análise virou mera fantasia, cultivada como se fosse um dogma por uma seita de crentes. A perda de contato com a realidade, por parte desses economistas, ficou claríssima nos últimos anos: enclausurados em sua “religião”, repetiam insistentemente que o Brasil não conseguiria exportar “porque os países ricos não comprariam”.
Alimentados por sua própria ladainha, recusaram-se sempre a se debruçar sobre as estatísticas e analisar a realidade, isto é, verificar como é que o comércio exportador brasileiro estava evoluindo. Se fizessem isso, teriam descoberto que suas “teses” estavam e estão furadas: desde 1974, o Brasil desistiu de tentar colocar suas mercadorias nos países ricos, e passou a procurar, agressivamente, os chamados “mercados novos”, isto é, os países enriquecidos pelo petróleo, os países socialistas ou mesmo os países em desenvolvimento para os quais os produtos brasileiros eram mais adequados do que os vendidos pelos países ricos. ] Uma estratégia racional: seria difícil vender televisores, ou liquidificadores, ou automóveis, ou máquinas aos EUA, Alemanha, França, Japão. Mas os mercados novos poderiam absorvê-los, e foram eles realmente que possibilitaram que as exportações brasileiras de manufaturas crescessem mais de 30%, ao ano, a partir de 74 (até que se manifestasse a recessão mundial de 1981).
Enquanto aquelas correntes de economistas repetiam sua lenga-lenga, as vendas brasileiras aos “mercados novos” cresciam aos saltos – tanto que, no primeiro semestre de 1981, esses “mercados novos” alcançaram uma situação em que não se acreditava, poucos anos antes: eles desbancaram os países ricos, e foram os responsáveis por pouco mais da metade das exportações brasileiras no período.
(Num parêntesis: os ministros e empresários que hoje defendem o “alinhamento” do Brasil com os EUA, rejeitando os parceiros do Terceiro Mundo, deveriam, antes, responder a uma única pergunta: os EUA e outros países ricos compram produtos industrializados do Brasil na mesma escala que os países em desenvolvimento, gerando empregos, renda e desenvolvimento tecnológico aqui dentro?)
O preço invisível
A segunda parte da crítica do ministro Delfim Neto, relativa a “mudanças no modelo”, é, no entanto, descabida, representando, mesmo, um de seus habituais sofismas, com os quais tenta impedir que o país enxergue a gravidade de seus problemas – e a possibilidade de superá-los. Do jeito que o ministro colocou a questão, fica parecendo que há uma proposta radical sendo defendida no País, pretendendo-se “suspender as exportações” e procurar o crescimento econômico exclusivamente através da “expansão do mercado interno”.
O ministro sofisma, porque ninguém melhor do que ele sabe que, com a dívida externa que o Brasil acumulou, vai ter que exportar para obter divisas e colocá-la nos eixos. A proposta de ênfase ao mercado interno, assim, tem um caráter muito mais amplo, que o ministro não quer que o País perceba. Essa proposta, em poucas palavras, pede uma nova política econômica.
Um planejamento, com programas que permitam a criação de empregos, a melhora de nível de vida da população, o afastamento da crise social que está aí – o que é plenamente possível através da destinação dos recursos nacionais a setores realmente prioritários, e do desestímulo a projetos que contribuam para ampliar a dívida, com necessidade renovada de ampliar as exportações, num círculo vicioso infernal, como o que envolveu o País nos últimos anos.
Neste exato momento, está surgindo a oportunidade para o governo examinar essas alternativas, partindo para mudanças de fôlego que evitem a repetição dos problemas atuais: empobrecimento do país, pelo pagamento de bilhões de dólares por ano, em juros; recessão, desemprego, falências, inquietação social; perda de soberania nacional, com os credores fazendo exigências tipo “só emprestamos se o Brasil desnacionalizar esta ou aquela indústria, abrir este ou aquele mercado para nossas importações e multinacionais”, como está ocorrendo no momento.
Nos últimos meses, desde que a dívida externa “estourou”, o governo mergulhou na incerteza, na falta de perspectivas, na dificuldade de prever se o país não ficaria totalmente insolvente, de uma hora para outra, levando a decisões drásticas (outros países, em situação semelhante à do Brasil, tiveram a capacidade de fazer as mudanças, mesmo dentro da “escuridão” da crise. De nada adianta, porém, voltar a falar da incompetência dos ministros brasileiros, a esta altura).
Agora, a situação é mais tranqüila. Com a melhora da situação econômica mundial, o Brasil deve obter novos superávits na balança comercial, nos próximos meses frustrando as previsões dos defensores da “moratória” e confirmando análises publicadas pela “Folha” (e criticadas como “demasiado otimistas”) já em março (“Melhoram as perspectivas para as exportações brasileiras”, 20/03/83).
Ao mesmo tempo, as taxas de juros internacionais (libor) continuam em queda, situando-se abaixo dos 9% ao ano, na última semana, contra 16,5% em junho do ano passado sobre uma dívida externa de US$ 90 bilhões, esse declínio de 7,5% representa uma economia de quase US$ 7 bilhões, por ano, em juros que não terão de ser pagos.
O alívio parcial trazido por essa nova situação deve ser aproveitado para repensar o País, seus problemas e prioridades, evitando-se a repetição de crises.