terça-feira 2 de novembro de 1999
O governo diz que a economia vai crescer 4% no próximo ano, “deixando a crise para trás”. A previsão é apenas uma brincadeira com estatísticas. Mesmo assim, ela já ressuscitou um antigo debate, sobre os riscos de a “volta do crescimento” provocar inflação, pois com o aumento do consumo as empresas poderiam finalmente reajustar os preços, que estão sendo “represados” exatamente por causa da retração no consumo.
Ora, antes de mais nada, é preciso ver que uma expansão de 4% para o PIB (valor dos bens e serviços produzidos pela economia em um ano), não teria hoje o mesmo significado – e os efeitos contra a crise – que no passado. Por quê? Você pode entender isso facilmente. O crescimento do PIB será calculado comparando-se o valor da produção de 2000 com a produção de 1999. Acontece que essa produção caiu tão violentamente nos últimos anos, sobretudo no caso da indústria, que qualquer avanço mínimo dará a impressão de que houve um “salto”positivo, erradamente interpretado como “recuperação da economia”.
Você quer um exemplo? A indústria automobilística produzia até 180 mil carros por mês em 1998, e recuou para 120 mil em 1999. Se ela aumentar a produção em 5% no ano 2000, estará na verdade produzindo apenas seis mil carros mais (ou 5% dos 120 mil), alcançando 126 mil veículos – muito distante dos 180 mil do passado. Isto é, o crescimento de 4% para o PIB não significará o fim da crise ou “recuperação da economia” coisíssima nenhuma. O desemprego e a quebradeira de empresas continuarão. E a inflação? Fica claro que esse “crescimento” ridículo não poderá ser acusado pela volta da carestia. Ao contrário.
Há um dado que está sendo estranhamente “esquecido” pelos analistas: um aumento na produção, a esta altura, até permitiria que as empresas reduzissem preços ou fizessem reajustes de preços menores. Por quê? É simples, outra vez. Sabe-se que, com a recessão, todas as empresas estão produzindo abaixo da capacidade. No caso da mesma indústria automobilística, por exemplo, há fábricas em que essa “capacidade desperdiçada” chega a nada menos do que 42%. Logicamente, as empresas poderão aumentar sua produção sem necessidade de novas máquinas e mesmo sem contratação proporcional de mão-de-obra. Isto é, os custos para ampliar a produção serão menores do que o aumento do faturamento, o que significa que cada produto ficará até mais barato, no final das contas.
O crescimento da indústria, portanto, não traz ameaça de inflação. As verdadeiras ameaças são outras. Uma, o preço do dólar que, como esta coluna tem mostrado, deve continuar a subir. Outra, o risco de colheitas menores, com a nova alta para os alimentos, por falta de apoio à agricultura.