Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 16 de dezembro de 1983
APROVEITANDO – O novo aumento de 24% para o preço do aço estava previsto somente para janeiro, pois o governo já concedera nada menos de três reajustes para o produto, a partir de outubro último. Por que a antecipação? Como se sabe, a inflação para o mês de dezembro, segundo os dados da primeira quinzena, está abaixo das previsões oficias, situando-se na faixa dos 7% (no acordo com o FMI, o Brasil previa uma inflação de 10% em novembro, e o resultado foi apenas 8,4%; para dezembro, estabeleceu-se uma inflação de 9%). Com isso, o governo preferiu aumentar já os preços do aço, em lugar de adiar para o mês de janeiro, pois mesmo com a iniciativa a taxa de inflação não deverá estourar a “meta”. Qual a vantagem da antecipação? Os preços do aço tinham sido “achatados” violentamente, até outubro, e com isso as siderúrgicas estatais vinham enfrentando prejuízos, agravando o déficit do setor público (que engloba também os resultados das empresas do governo). Com o novo aumento, esse déficit também será reduzido, tornando mais fácil cumprir a meta estabelecida pelo Fundo Monetário para essa outra área.
TRIGO TAMBÉM? – outro compromisso assumido pelo Brasil para reduzir o déficit público: extinguir, até junho do próximo ano, os subsídios ao trigo (o governo compra a um preço mais baixo ao consumidor, com o Tesouro cobrindo a diferença). Ninguém se surpreenda se houver uma redução parcial nos subsídios ainda este mês, encarecendo o seu preço: o governo está tentando aproveitar a inflação baixa, para, como no caso do aço, implantar a medida.
UM MAL? – há quem critique violentamente o encarecimento do trigo – e conseqüentemente do pão, macarrão, bolachas, isto é, alimentos de largo consumo popular. Detalhe a ponderar: o trigo é um produto importado. Seu preço artificialmente baixo se justificou, do ponto de vista social, na fase (julho a setembro) em que o arroz, feijão, batata atingiram preços inacreditavelmente altos, pois as massas foram usadas para substituí-los. Agora, porém, com as novas safras, todos esses produtos baratearam – e vão baratear ainda mais – e é preciso criar mercado para eles. Isto é, é preciso estimular seu consumo para garantir lucros ao produtor brasileiro, gerando-se renda e empregos aqui dentro. Isso será conseguido com o encarecimento do trigo.