Revista Visão ,
Em agosto, um ligeiro reaquecimento do consumo ressuscitou um velho vício brasileiro: as empresas voltaram a reajustar preços com base na taxa de inflação passada – e não com base, exclusivamente, nos aumentos reais ocorridos em seus custos. O governo diagnosticou, de pronto: é a volta da indexação, da correção automática de preços, com a qual é impossível derrotar de vez a inflação. Contra a “indexação informal”, só há um remédio, completou Brasília: elevar as taxas de juros, para “esfriar os negócios, forçar a desova de estoques a preços mais baixos e, se necessário for, chegar até a recessão, com desemprego e falências”. Agora, dois meses depois, será que esse diagnóstico continua correto, e as falências e tendências recessivas são mesmo necessárias? Há mudanças no cenário econômico que, aparentemente, o Ministério da Economia poderia festejar e, no entanto, parece ter dificuldades em aceitar – tanto que mantém a mesma política recessiva. Analisem-se rapidamente, esses mudanças e seu significado:
Desindexação à vista – O governo afirma que ainda persiste o vício da indexação. Ora, o que parece estar em cena nas últimas semanas é uma mudança revolucionária, uma tendência oposta, ou, mais precisamente, a “desindexação”. Como assim? O governo liberou totalmente os preços. Em alguns setores houve altas de 400% a 500%, como é o caso de remédios, artigos de beleza etc. No entanto, as taxas de inflação continuam a oscilar na faixa do 13% a 14%. Se houvesse a indexação informal a que o governo se refere, todos os preços estariam subindo nessa faixa, que passaria a representar um piso para a inflação – e os índices inflacionários subiriam rapidamente para os 18%, 20%, 22%, puxados pelos reajustes superiores, praticados por setores liberados. Se a taxa persiste nessa faixa, é porque outros setores estão praticando reajustes inferiores, ou até reduzindo preços. Desindexando.
Combustíveis – Até certo ponto, a ministra da Economia vislumbrou essa mudança, esse recuo da “cultura inflacionária”, ao comentar os reajustes na faixa de 30% para os combustíveis, praticados em agosto/setembro. Como ela apontou na época, foi a primeira vez, em décadas, que um reajuste vigoroso nos preços dos derivados de petróleo não desencadeou uma onda de remarcação de preços – muitas vezes, em níveis totalmente disparatados.
Salários – Nos dissídios anuais, os sindicatos iniciam a campanha reivindicando reposição integral dos salários, com base na inflação passada (12 meses, ou a partir de março). Mas os acordos acabam sendo fechados com base nas regras do governo, isto é, de mera recomposição dos salários reais médios. Contra reivindicações na faixa de 300% a 400%, acordos na base dos 120% a 130%. Isto não é “indexação informal”. É indexação.
Liberação de preços – Nos choques anteriores, quando acaba a fase de congelamento, havia disparada nos preços (até por temor a novo congelamento), e as taxas de inflação disparavam rapidamente. Agora, isto não ocorre, apesar da liberação generalizada de preços.
Pode-se argumentar que todas essas mudanças são conseqüência, também, da própria política de “esfriamento” da economia. E são mesmo. Mas, para esfriar o consumo e segurar os preços, rumando para taxas de inflação mais baixas, o programa de estabilização já tem uma grande arma (mesmo que não se concorde com o seu uso), a saber, a política de contenção, ou “achatamento” dos salários. Ela é suficiente para segurar o consumo e derrubar os preços. Não há necessidade de lançar mão, também, dos juros altíssimos, pois eles estão, neste momento, tendo um efeito duplamente oposto ao pretendido. Eles aumentam os custos das empresas – levando-as a tentar elevar preços, ou a enfrentar dificuldades. Cria-se com isso um clima de crescente desconfiança, dentro da economia – e clima de desconfiança abre as portas para a volta à especulação, inclusive com o ouro e o dólar. Toda a credibilidade da política oficial vai sendo abalada.
Aparentemente, o governo teria decidido manter a política de juros elevadíssimos a partir de interpretações equivocadas sobre a evolução da taxa da inflação, divulgada em São Paulo. Segundo os dados da Fipe, entidade que apura o índice de inflação na capital paulista e divulga resultados (da quadrissemana anterior) a cada semana, na segunda quadrissemana de outubro a taxa acusou uma pequena alta, de 12,4% para 12,7%. Além disso, o índice ponta a ponta disparou.Se a ministra da Economia examinar bem os dados da Fipe, vai descobrir que não há motivo para alarme. Analisando-se item por item, pode-se mesmo ser otimista quanto à evolução da inflação. A alta da alimentação, por exemplo, está perdendo ritmo, com 14,3% contra 15,2% na semana anterior. Os produtos semi-elaborados deverão reforçar essa tendência (18,9% contra 23,2%), com a queda até nominal dos preços da carne. Em despesas pessoais, há queda até para serviços pessoais (15,7% versus 16,5%). Em habitação, caem manutenção (4,6% para 4,0%), aluguel (20,4% contra 20,8%) e até artigos de limpeza (13,9% contra 15,3%).
Em resumo, há pressão menor nos três grandes grupos: alimentação, habitação e despesas pessoais. Mais uma vez, há altas isoladas em transportes, vestuário e saúde. Neste último caso, no entanto, verifica-se que a liberação dos remédios puxou a taxa, de 11,7% para 20,7%, entre a terceira semana de setembro e a primeira de outubro. Já na segunda semana, o ritmo de alta começa a desacelerar com 23,3%. Os dados, em resumo, não mostram a prática da indexação informal. Pedem a mudança de política de juros elevadíssimos.