Revista da Fenae , 1998
Claro que a crise brasileira, a falta de dólares, a quebra do país nunca precisariam ter acontecido. Há não mais de quatro ou cinco anos, o Brasil apresentava excelentes saldos positivos em sua balança comercial, isto é, exportava mais que importava. Sobravam, todos os anos, mais de US$ 10 bilhões. Claro que o escancaramento do mercado às importações, além de destruir milhões de empregos e milhares de empresas, nunca deveria ter acontecido - pois transformou aquele saldo positivo, aquela sobra de dólares, em rombos que o governo procurou cobrir atraíndo dólares às custas de juros incríveis - que quebraram o Tesouro. Foram quatro anos de política econômica de terra-arrasada, que inevitavelmente, ou matematicamente, levaria o país à falência - mesmo que não tivesse explodido a crise asiática 2. (Em outro país, de opinião pública melhor abastecida de informações, dificilmente os responsáveis por esses desastres ficariam imunes à condenação, ao menos moral, por seus atos). Agora que o desastre chegou, com pacotes e tudo o que se conhece, resta como consolo a percepção de que, graças a mudanças que estão ocorrendo no mundo, a sociedade brasileira ganhou a possibilidade de enfrentar um período de dificuldades não tão longo quanto se poderia temer, e com sacrifícios menos terríveis (mas ainda assim terríveis) quanto os previsíveis. Que mudanças mundiais são essas? Pode-se sintetiza-las com uma única expressão: o mundo está diante da maré vazante da onda neoliberal, que impôs políticas suicidas ao Brasil e outros países em desenvolvimento. A história da humanidade está encerrando um ciclo, do chamado neoliberalismo, que conduziu o planeta a catástrofes das quais a exclusão de milhões de pessoas é a mais grave.
O neoliberalismo prega que é preciso deixar os mercados totalmente livres, para que a economia se desenvolva com perfeição, sem distorções provocadas pelos controles do Estado. A quebra dos tigres asiáticos, os sucessivos terremotos nos mercados financeiros internacionais, colocaram os dogmas neoliberais em ataque. Mais ainda: surgiram críticas, tímidas no começo, mas cada vez mais freqüentes nos últimos meses, contra os remédios burros contra a crise, impostos pela cartilha do FMI aos países quebrados. Ao obriga-los a adotar política de juros altos na tentativa de atrair capitais, o FMI apenas multiplicava os problemas: empresas não conseguiam pagar dívidas, e por isso os bancos quebravam, a moeda se desvaloriza ainda mais, os capitais estrangeiros evaporavam. Tudo, óbvio. Mas estupidamente implantado no mundo como quintessência do saber neoliberal. Talvez encorajados pelas críticas ao FMI, coube a países asiáticos, inicialmente, e depois aos latino-americanos (Chile, Equador e Venezuela), romper com os dogmas neoliberais: em lugar de juros altos para atrair dólares, partiram para o restabelecimento de algumas formas de controle para disciplinar a entrada e saída de dólares em sua economia. Controles de Estado, que a onda neoliberal havia varrido do mapa.
O Brasil estava quebrado desde abril/maio, quando o capital estrangeiro já começara a fugir das bolsas - e, logo depois, o governo passou pelo vexame de não conseguir vender seus títulos, sendo obrigado a ressucitar a correção monetária, com a oferta de juros pós-fixados para não ser forçado a declarar-se em moratória, sem dinheiro para quitar compromissos. Por sorte, a agonia do Brasil chegou até agosto/setembro - pois, aí, encontrou esse quadro novo, de rachaduras na unanimidade em torno das teses neoliberais. Por isso, pode voltar a estabelecer controle sobre as importações - um ótimo fruto da crise, pois permitirá o renascimento de empresas e empregos destruídos pelo escancaramento. Com isso, haverá menos rombo e menos necessidade de atrair dólares, possibilitando também a redução dos juros, vale dizer: haverá menos recessão e o "ajuste" das contas do governo poderá ser mais rápido e menos doloroso (mas sempre doloroso) do que ocorreria com o modelo mantido anteriormente pelo FMI. E a crise mundial, não vai atrapalhar esse ritmo de recuperação? É preciso que se saiba que os tigres asiáticos já reequilibraram sua balança comercial, estão exportando mais do que importam - isto é, não estão mais quebrados. E que a Europa vai bem, obrigado. A Rússia? Os preços do petróleo, que haviam caído e contribuído para o impasse russo, tiveram forte recuperação em setembro, e deverão minorar as dificuldades russas. Com problemas, daqui para a frente, estarão os EUA - que conseguiram imensa prosperidade nos últimos anos às custas de escancarar os mercados de outros países.