Revista Visão , quarta-feira 30 de janeiro de 1991
O principal míssil contra a política de combate à inflação não veio do Oriente Médio. Ele foi disparado aqui mesmo, no Brasil – mais precisamente a partir do edifício do IBGE, no Rio. Não bastasse um IPC de 18,3% para dezembro, apurado com base em preços médios de 16 de novembro a 15 de dezembro, o IBGE anunciou ainda, uma semana depois, um aterrador resultado de 19,39%, quase 20% para o IRVF, índice que o governo criou e passou a usar, oficialmente, para reajustar o BTN – vale dizer, transformou-o no índice oficial de inflação (ou de indexação). O efeito devastador do IRVF foi incalculável. Explodiram as análises afirmando que a inflação havia fugido ao controle – e não apenas por causa da crise do golfo Pérsico. O bombardeio foi tão intenso, que obscureceu totalmente os índices apurados por outras instituições, bastante mais favoráveis a Brasília, já que mostravam recuos na taxa de inflação em relação ao mês de novembro. Para a Fipe, a inflação em São Paulo ficou em 16,03%. Para o Dieese, em 17.07%.
Para a Ordem dos Economistas, em 15,22%. Atordoada com a explosão dos 19,39% do IRVF, a equipe da ministra Zélia Cardoso de Mello sequer tentou avaliar, até para tentar esclarecer aos agentes econômicos, as razões da total divergência entre aqueles resultados. Sempre que ela surgiu, em ocasiões anteriores, afirmava-se que o problema era apenas de metodologias, variáveis de uma instituição para outra. No caso da inflação de dezembro, no entanto, a discrepância exigiria maiores esclarecimentos. Primeiro, porque todos os demais índices acusaram tendência de queda para a inflação (inclusive a taxa apurada pelo Dieese). Segundo, porque há uma incrível distância – que só a “metodologia” não justifica – entre certos resultados anunciados pelo IBGE e as demais entidades apuradoras. Por exemplo: nos índices do IBGE, houve forte alta para aluguéis, na faixa dos 50%, praticamente.
Aqui, no entanto, tanto no caso da Fipe com da Ordem dos Economistas, os reajustes nessa área estiveram muito abaixo, com meros 17%. Da mesma forma, os índices de reajustes para remédios alcançaram a faixa dos 70%, no caso do IBGE, o dobro do acusado por outras instituições, com a alta dos gastos médicos chegando aos 50% - contra 17% a 18% apurados pelas entidades não oficiais. Ao silenciar diante dessas desigualdades, Brasília deixou o caminho aberto para as previsões de inflação em alta e, por conseqüência, para os temores ao congelamento e os reajustes preventivos de preços por parte dos empresários. Houve omissão da equipe do governo diante dos índices do IBGE. A ela somou-se a eclosão da guerra no Golfo. A partir desses fatores, pode-se até considerar surpreendentemente “controlado” o clima que vem marcando a economia brasileira nos últimos tempos.
Note-se bem: fala-se muito em uma inflação ascendente. No entanto, não se repetiu o quadro especulativo que sempre se formava em ocasiões semelhantes (e até menos graves), no passado recente. A especulação com o ouro e o dólar refluiu em certos momentos, havendo até mesmo recuo nas cotações (e no movimento de negócios). As taxas do over acusaram sucessivas quedas (quando o contrário deveria ocorrer, dentro do comportamento tradicional do mercado). Da parte dos empresários, não se ouvem queixas contra remarcações generalizadas de preços, por parte dos seus fornecedores de matérias-primas e insumos. O consumidor tampouco modificou seu comportamento de moderação nas compras, cessando rapidamente o esboço de “corrida” para formação de estoques, que se seguiu à irrupção da guerra. Difícil encontrar explicações para essas mudanças de comportamento da economia e da sociedade.
Mais do que tentar explicá-las, no entanto, caberia à equipe econômica tentar capitalizá-las, mobilizá-las no sentido de forçar os refluxos da alta da a inflação. Por crê ou por lê, os agentes econômicos, empresários e consumidores demonstram o que talvez pudesse ser chamado de inexplicável maturidade diante da situação crítica. Valeria intensificar a comunicação entre Brasília e a sociedade, destacando-se os fatores que ainda podem permitir a contenção da inflação, neste momento. A tarefa é, porém, urgente: a especulação com alimentos básicos – arroz, carne bovina, carne suína e derivados principalmente – vai “puxar” a taxa de inflação nestas próximas semanas. O governo precisa tentar demonstrar, ao menos, que a alta nessas áreas é temporária, já que novas safras estão às portas. E, não se limitando às explicações, deve também combater evidentes exageros que estão ocorrendo com a comercialização desses produtos. Para completar, Brasília poderia concordar em reduzir os juros a níveis mais aceitáveis – desde que exigisse, também, que indústria e comércio reduzissem, igualmente, os preços que as empresas elevaram apenas para “embutir” o alto custo do dinheiro captado no mercado. Há clima para uma contra-ofensiva, resta aproveitá-lo.