Jornal Diário Popular , quinta-feira 1º de junho de 2000
Você se preocupa com o aumento da violência, da criminalidade, do incrível número de assassinatos no Brasil? Com a expansão do narcotráfico e a repetição de chacinas? Torce para o quadro assustador mudar? Pois então veja bem: no ano passado, o governo federal “segurou” nada menos de 70% das verbas, que já eram baixas, reservadas no orçamento para projetos de combate à violência. O “novo” programa para reduzir a criminalidade, lançado em 1998 pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, previa a ampliação do sistema penitenciário, com a construção de 40 mil celas. Ficou tudo no papel. Não foi liberado um tostão sequer para esse projeto. Nem em 1998. Nem em 1999.
Você se preocupa com as notícias sobre o aumento no número de mortes de brasileiros por causa da volta de moléstias como o dengue, a cólera, a febre amarela, a leishmaniose, geralmente provocadas pela falta de saneamento básico, isto é, esgotos e água encanada? Você viu a notícia de que o governo esconde as verdadeiras dimensões dessas “epidemias” - tanto que uma pesquisa em Campinas, grande cidade do interior de São Paulo, mostrou que o número de pessoas contagiadas pelo dengue foi muitas vezes e muitas vezes maior do que se havia anunciado na época do surto?
E você viu que de l995 a l997 nada menos de 350 mil crianças morreram no Brasil por causa de doenças ligadas à mesma falta de saneamento? Você acha que o governo está preocupado com essas tragédias? Pois você se engana. Desde o ano passado, o governo FHC proibiu que o FGTS, o fundo de garantia dos trabalhadores, continue a emprestar dinheiro às Prefeituras e Estados para instalar serviços de água e esgotos.
Você se preocupa porque madeireiras estrangeiras derrubam a mata na Amazônia, e o Ibama, o instituto incumbido de evitar a devastação do meio ambiente, não tem fiscais para reprimi-las? Ou porque a Receita Federal não pode contratar mais fiscais para combater o contrabando e a sonegação? Ou porque a ampliação do número do número de agentes da Polícia Federal vai sendo sempre adiado? Ou porque as verbas para treinamento de trabalhadores foram cortadas? Ou o dinheiro para construção de escolas no Nordeste foi suspenso? Ou, como os jornais noticiaram nos últimos dias, o governo deixou de pagar até os R$ 25 por mês que famílias das regiões miseráveis recebiam, para tirar seus filhos do trabalho pesado em carvoarias, minas, babauçais, dentro do programa contra o trabalho infantil?
Pois é. Se você se preocupa com esse retrato trágico, marcado pela violência, criminalidade, mortalidade, impunidade, e juntou todas essas peças, você acaba de montar um quebra-cabeças maldito. Esse é o retrato do Brasil de Fernando Henrique Cardoso. Esse é o retrato do Brasil com os “cortes” nos gastos do governo federal, o célebre “ajuste fiscal” que analistas chapa-rosa tanto festejam. Um “ajuste fiscal” que está massacrando a população, desmontando todos os serviços de que ela e o próprio governo precisam.
Cortes, cortes, cortes. Tudo, enquanto o governo Fernando Henrique Cardoso paga R$ 10 bilhões de reais aos banqueiros e investidores que compram seus títulos (“papagaios”). R$ 10 bilhões. Por mês. Até quando a sociedade vai suportar as conseqüências dessa política?