Jornal Diário Popular , segunda-feira 8 de maio de 2000
Dois “rombos”, um em reais e o outro em dólares, estão provocando a nova fase de queda do real (dólar em alta) e disparada das taxas de juros. O “rombo” em reais, como esta coluna mostrou ontem, não será resolvido nunca, com a política econômica atual, pois é provocado pela carga de juros que o Tesouro está mantendo por causa da sua explosiva dívida em títulos (“papagaios”). Sozinhos, esses juros, com uma taxa de 20% ao ano, já representavam um “buraco” de R$ 92 bilhões por ano, sobre a dívida de R$ 467 bilhões, em março. Os números assustam os banqueiros e investidores internacionais, que trazem dólares para o País, inclusive para a compra dos títulos do governo. E esses compradores sabem que o quadro ficou ainda mais grave nas últimas semanas, porque 25% daqueles “papagaios” são vendidos com o preço fixado em dólar (ou, como dizem os técnicos, pagam correção cambial). Quando o dólar sobe ou desce na comparação com o real, essa variação do preço da moeda norte americana é incluída na conta de juros do mês vale dizer, como o dólar subiu seus 4% a 5% em abril, o governo vai anunciar este mês resulta dos ainda piores para o “rombo”, com aumento da própria dívida (por causa dos “papagaios” em dólar) e da carga de juros.
O Brasil, assim, continua preso em uma “armadilha”, um círculo vicioso: os banqueiros e investidores internacionais exigem juros altos para trazer seus dólares; os juros altos fazem a dívida do governo inchar; esse inchaço preocupa aos banqueiros investidores, que então reduzem a entrada de dólares, ou mesmo os levam de volta; cria se a falta de dólares e seu preço sobe, isto é, o real cai; tentando segura-los aqui dentro, e recuperar o preço do real, o governo aumenta de novo os juros, e a dívida sobe, e o medo do calote cresce, e os juros e o dólar sobem, e... tudo explode, como em janeiro do ano passado.
Como o Brasil poderia desarmar a armadilha em que caiu ou, para ser exato, em que foi colocado pelo governo FHC, com sua política ligada aos interesses dos países ricos? Conforme exposto acima, o problema todo começa com a preocupação que o governo tem de atrair dólares, aumentando para isso os juros aqui dentro. Por que tanta necessidade de dólares? Aqui, entra em cena a outra armadilha, o outro círculo vicioso: o Brasil precisa pagar, este ano, nada mais nada menos do que US$ 53 bilhões lá fora (esse é o “rombo” em dólares admitido pelo governo, mas ele pode ser até maior). São US$ 30 bilhões em “prestações” dos em préstimos externos (ou amortização da dívida), mais uns US$ 23 bilhões representados por juros sobre os empréstimos internacionais, remessas de lucros e dividendos ou pagamento de tecnologia que as filiais fazem para as matrizes lá fora, e assim por diante.
Em resumo: o Brasil e o real são prisioneiros da “armadilha dupla” dos juros altos e remessa de dólares para o exterior. Os dados mostram que essas contas jamais poderão ser equilibradas. Com o modelo adotado por FHC, as crises econômicas serão inevitáveis. E cada vez mais graves.