[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Abiquim quer exportar sem improvisação

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 25 de fevereiro de 1982


Um aumento de 60% nas exportações, que saltaram de 410 para 650 milhões de dólares entre 80 e 81, amenizou os efeitos da súbita retração do mercado interno para os produtos petroquímicos, no ano passado. Em melhor situarão, portanto, que outros setores básicos — como os fabricantes de bens de capital — , nem por isso o setor encara futuro com tranqüilidade, repetindo a críticas, constantes nos meios empresariais, de que o País não dispõe no momento de um política industrial definida. E integrada, por sua vez, em uma política econômica definida, de longo prazo, que ajude o País a reduzir efetivamente o ritmo de crescimento de sua dívida externa, reduzindo a atual dependência do Exterior.

Paulo Cunha, presidente da Abiquim - Associação Brasileira das Indústrias Químicas, ressalta que o setor recebeu todo o apoio do governo para ampliar suas exportações, no momento em que a política econômica restritiva afetou suas vendas. Pondera, no entanto, que — principalmente em relação à petroquímica — o Brasil deveria estabelecer um planejamento de longo prazo para transformar-se em fornecedor permanente no mercado externo, em lugar de realizar vendas episódicas, apenas nos momentos de conjuntura interna difícil.

— Não adianta chorar o "leite derramado", diz Cunha. O País enfrenta o impasse da dívida externa, sua economia passou a ser vulnerável às flutuações internacionais originando períodos de política restritiva como no momento. Acredito que tanto os empresários quanto o povo estão de acordo em que é preciso romper o "círculo vicioso" dessa dependência externa. Assim, cabia ao governo estabelecer como objetivo, para os próximos anos, a obtenção de superávits na balança comercial, não apenas através de previsões aleatórias, e sim concentrando esforços nos setores com maior poder de com petição no mercado mundial.

Até agora, segundo os empresários, faltou um diagnóstico amplo nesse sentido, por parte do governo. O aumento das exportações — de forma "episódica", como aponta Cunha — ocorrendo de forma improvisada ao sabor de eventuais brechas no mercado para este ou aquele produto — ou em decorrência de eventuais sobras no mercado interno, com os "excedentes" exportados à custa, muitas vezes, de incentivos excessivos, por parte do governo.

Para Paulo Cunha, o setor petroquímico brasileiro pode ambicionar uma posição de destaque no mercado internacional, graças a uma série de características resultantes da própria economia brasileira.

MOMENTO FAVORÁVEL
Numa análise ampla da indústria petroquímica mundial, o presidente da Abiquim lembra que, durante a década de 50, os EUA dominavam o comércio químico mundial, com participação superior a 30%. Na década de 60, o quadro modificou-se radicalmente, com impressionante avanço da Europa, sobretudo a Alemanha, e do Japão.

"O avanço não foi acidental", diz Paulo Cunha. "Os EUA, em função de sua gigantesca frota de veículos, consumia, sob a forma de gasolina, a matéria-prima básica da indústria petroquímica, isto é, a nafta. Na Europa e no Japão, países menos automobilizados, o refino do petróleo para obtenção de outros derivados (óleo diesel, óleo combustível) deixava grandes excedentes de nafta, disponível assim em quantidades volumosas e a preços baratos. Já em 1975, graças à expansão de seu parque petroquímico, Europa e Japão respondiam por 60% das exportações químicas mundiais, contra apenas 14% dos EUA."

Segundo Paulo Cunha, a possibilidade de substituir a gasolina por outros combustíveis como o álcool, no Brasil, cria perspectivas duradouras de disponibilidades de nafta, e a um preço conveniente. Isto, por si só, já seria um poderoso impulso inicial para que o Brasil planejasse assumir o papel de exportador permanente, e grande exportador, de produtos petroquímicos. Além dessa vantagem do próprio país, há em cena um novo ciclo, em escala mundial:

— Nos últimos anos, a oferta de nafta se contraiu, na Europa e Japão, por uma série de circunstâncias, entre as quais figura a própria substituição do petróleo, em algumas áreas, por outras fontes de energia, com reflexos sobre a estrutura de refino — e a oferta daquela matéria-prima. Há assim, no momento, nova tendência mundial, com a Europa e o Japão desativando linhas de operação da indústria petroquímica básica, aponta Paulo Cunha. O Japão, aliás, já declarou oficialmente a intenção de reduzir gradualmente sua participação nessa área, concentrando-se na produção de bens finais, as chamadas "especialidades".

SOLUÇÃO URGENTE
Tudo mostra, diz Paulo Cunha, que este é o momento para o Brasil assumir um papel chave no mercado mundial, através de um planejamento de longo prazo. Com isso, o governo estaria encaminhando soluções para vários problemas, interrelacionados, ao mesmo tempo: seria uma forma de assegurar taxas de crescimento para o setor, e, portanto, para a economia; as exportações permanentes, por sua vez, contribuiriam para o desafogo das dificuldades na área cambial, círculo vicioso em que se debate a economia nacional.

Paulo Cunha defende definições urgentes para o seu setor, cujas perspectivas de crescimento foram truncadas pelas atuais dificuldades da economia:

— A queda na produção em 1981, embora minimizada por exportações, provavelmente não será provisória, como se costuma acreditar. Nos EUA, o "choque do petróleo", em 1973, provocou uma série de ajustes dentro da economia, com mudanças no perfil de consumo em todas as áreas. Na área petroquímica, a violenta queda em 1974/75 foi seguida na recuperação, mas as curvas de crescimento da produção não voltaram ao seu nível anterior e as taxas de crescimento passaram a ser sensivelmente mais baixas.

Em outras palavras, a produção do setor se ajustou a um "patamar" mais baixo, o que deve ocorrer também no Brasil, onde o ajuste da economia à alta dos preços do petróleo foi deliberadamente retardado até o ano passado, mantendo-se altas taxas de crescimento econômico – às custas do crescente endividamento externo.

Paulo Cunha ressalta, para finalizar, que assim como ocorreu com os países industrializados, o Brasil somente conseguirá firmar-se como exportador mundial de produtos petroquímicos através de empresas sob controle nacional. "Para isso é preciso fortalecê-las" — o que desemboca, novamente, na necessidade de uma política industrial definida para o País.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil