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  Ameaças contra a indústria nacional de computadores

Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 4 de maio de 1983


“A uva viu o Ivo”. Assim seriam as lições das cartilhas lidas pelas crianças brasileiras, num futuro próximo, com inversão da lógica e da verdade – se não fosse a abertura política.

É essa uma das conclusões que se pode tirar, a partir dos últimos lances da batalha que vem sendo travada em defesa da indústria nacional de computadores, sob pressão das multinacionais e do governo Reagan. Como se sabe, para forçar a criação de uma nova tecnologia nacional na área da informática – a “indústria do futuro” –, o governo Geisel, a partir de 1974, incentivou as empresas nacionais a começarem a produção de microcomputadores – e proibiu as multinacionais de atuarem nessa área, exatamente para “reservar mercado” aos fabricantes nacionais. Por várias vezes, ao longo dos últimos anos, governos amigos e amigos desses governos tentaram modificar a orientação – esbarrando com a resistência de áreas militares.

Agora, com o País de mãos atadas diante dos credores, por causa da dívida externa que “não preocupava”, as pressões ressurgiram, e a todo vapor. No começo de abril, um subsecretário do governo Reagan veio ao Brasil tratar do assunto. Depois, surgiu um documento da Fiesp em que a entidade da indústria paulista pedia, indiretamente, o fim da reserva de mercado. Alegando que o País precisa da tecnologia das multinacionais “para não ficar atrasado na era dos computadores”, a entidade que presumivelmente (pela lógica) deveria defender a indústria nacional, sugeriu uma solução aparentemente intermediária. O governo, diz o “estudo”, deveria autorizar associações dos fabricantes nacionais com multinacionais, nas chamadas “joint ventures”, para absorverem a sua tecnologia.

Diante da reação negativa que sua iniciativa provocou, a Fiesp, candidamente, vem agora a público explicar que o “documento” tinha apenas o objetivo de provocar o debate, nos próprios meios empresariais, para então se chegar a uma conclusão. Muito democrático, muito bonitinho, mas na lógica democrática, ou no reino da verdade, o procedimento seria inverso: a Fiesp (quem é a Fiesp, afinal?) primeiro ouviria os empresários, e depois publicaria um documento com suas conclusões. Nos tempos do “fechamento”? Aí, sim, estaria tudo correto: o documento seria usado para provar que “até os empresários” são contra a reserva de mercado. E os ministros amigos dos governos amigos poderiam, gostosamente, destruir a indústria nacional de computadores, mudando as regras atuais.

Pelos seus pecados de origem, o documento da Fiesp nem deveria merecer análise. Mas como a ofensiva contra a indústria nacional de informática vai persistir, vale a pena relembrar algumas coisinhas esquecidas pela lógica dos donos absolutos do poder, nos tempos do “fechamento”. A proposta de permitir associações de multinacionais com empresas nacionais, com estas detendo a maioria das empresas assim formadas, parece pura (na lógica da Fiesp, vai ver que o único risco era a anãzinha nacional engolir a gigante multinacional. Um horror...).

Ora, os donos da Fiesp sabem muito bem que o controle acionário não quer dizer absolutamente nada: os célebres acordos secretos de acionistas acabam dizendo quem é que manda.

Só para refrescar-lhes a memória, é bom lembrar o espetaculoso caso da falência da Transit, uma firma nacional que ousou produzir um componente básico para a indústria eletrônica e de computadores. Quando ela quebrou, porque indústrias “nacionais” se recusaram a comprar-lhes os componentes, ficou-se sabendo de coisas bastante interessantes. Por exemplo: a Sharp é uma empresa “controlada” por acionistas nacionais, mas que se associou com uma fabricante japonesa de televisores e eletroeletrônicos em geral para “absorver” tecnologia (exatamente como a Fiesp propõe para os computadores).

Pois a Sharp tinha (e deve ter ainda) um “acordo de acionista” com o seu sócio japonês, pelo qual este exigia que, quando se pensasse em comprar um componente nacional, esse componente deveria ser testado na “matriz”, perdão, na “sócia”, lá no Japão. Uma exigência estabelecida a pretexto de garantir a “qualidade” do produto mas que, pela lógica, e na prática, tinha um só objetivo: proibir a compra de peças nacionais, para arruinar fábricas nacionais e sufocar o desenvolvimento de tecnologia nacional. É esse o brilhante futuro para a tecnologia nacional que a proposta da Fiesp assegura, com a criação de “joint ventures”.

Felizmente, os tempos são de abertura – e a “lógica” dos antigos “donos do poder” já é contestada até por empresários, que em outros tempos não seriam ouvidos. Para o bem do Brasil, “o Ivo viu a uva”.



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