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  O divino direito de escorchar

Revista Isto É , quarta-feira 12 de abril de 1978


Pobre de nós, mortais: que entendemos nós do direito divino de escorchar? Como ousamos criticá-lo, como podemos usar a lógica e falar em ética, em moral, em interesses da nação, se o direito de escorchar é concedido por divindades, acima do bem e do mal?

Entrevista coletiva. O ministro da Fazenda anuncia, risonho, que a inflação de março é de 3,3%. Que o IPA – Índice de Preços no Atacado — situou-se "bem abaixo" do do mês de fevereiro. Mas o IPA serve de base ao cálculo da correção monetária; logo, ela também cairá. "Como ficarão as cadernetas de poupança?", pergunta um repórter. "É mesmo", diz o ministro, completando: "Então, põe aí que oIPA ficou um poucoabaixo dode fevereiro". Risos. Inteligentes. As divindades e seus querubins, antigamente chamados jornalistas. Antigamente identificados com os mortais, com a nação.

Que reino é este, que virou um grande cassino, uma grande casa de agiotagem? Que rumo são esses que o reino trilha, a ponto de a queda da inflação ser encarada como algo nocivo (porque vai reduzir os ganhos na aplicação de capital)? Que esquizofrenia tomou conta desta sociedade, a ponto de o anúncio da queda do IPA provocar imediatamente preocupação com os ganhos dos aplicadores em cadernetas de poupança, demonstrando um condicionamento, uma mentalidade já incorporada, até em jornalistas?

O reino da Grã-Bretanha certamente não é. Lá, quando a inflação chegou à casa dos 40%, por um curtíssimo espaço de tempo, há três anos, passou-se a pagar uma espécie de correção monetária. Mas somente aos depositantes de baixíssima renda, geralmente velhos, aposentados, pessoas que vivem de suas pensões — apenas para evitar que suas economias, os tostões que lhes garantem um fim de existência tranqüilo, perdessem o poder aquisitivo, deixando-os na miséria. Em outros países capitalistas? Neles, os juros pagos aos aplicadores de capital são inferiores a inflação, geralmente a metade da inflação, para não alimentá-la.

No começo de 1974, discutia-se o efeito da correção monetária sobre a inflação. Uma das divindades da época, casualmente presidente do Banco Nacional da Habitação, especialmente chamado Rubens Vaz da Costa, saiu a campo, em defesa da correção, e provou que presidia, na verdade, o Banco Nacional da Desabitação. Para ele, a correção era antiinflacionária, por uma lógica divina. "Todo mundo tem medo da correção", dizia ele ao Jornal do Brasil, ninho de querubins. "É por isso que pouca gente se candidata à casa própria. Se não houvesse a correção, todo mundo ia querer comprá-la, haveria forte demanda, e os preços disparariam." Logo, a correção é antiinflacionária. Logo.

Como há correção monetária no Brasil, os juros bancários, o custo do dinheiro, não podem cair, dizem as divindades atuais. Diria a lógica humana que, para uma correção monetária de, no máximo, 35% ao ano, a esta altura, há juros de 60, 80, 100, 160% ao ano. Mas nem isso importa. O poder divino desdenha a lógica.

Ao tomar posse, o ministro da Fazenda, logo após o caso Halies, advertia o mercado financeiro contra o custo do dinheiro. Hoje, em entrevista a ISTOÉ (28/03/1978), ele diz que os juros nada têm a ver com a inflação. O que está pressionando os índices, diz ele, são os serviços públicos e a agricultura, que têm crédito subsidiado. A indústria, que paga juros altos, tem outro comportamento.

Os mortais podem pensar que, se os juros são um custo pago pelas empresas, sua queda, em 10, 20, 30 ou 40%, traria redução proporcional em seus preços, logo, na inflação. Ledo engano. Só os deuses sabem.

Os mortais podem pensar ainda que, se os custos da indústria não pesam na inflação, então chegou o momento de aumentar o salário mínimo em 60%. E adotar o sistema de reajustes trimestrais para os salários, já que só eles, neste grande cassino, são corrigidos anualmente.

Manchete no DCI - Diário Comércio e Indústria fala em juros de 130% ao ano, para o consumidor. Querubins alvoraçados procuram seus deuses. Como sentinelas avançadas, oferecem-se para defender o mercado, isto é, o paraíso. Oferecem seus préstimos, mais uma vez: "Sempre defendemos o open, adotamos a mesma linguagem de Vossa Santidade, falamos em open 1 e open 2, abraçamos o monetarismo, há anos que nos rendemos, deixamos de raciocinar. Até gozamos e difamamos os jornalistas que insistem em não virar querubins (‘criticar o mercado financeiro é quixotismo’, diz na sala de aula o querubim-professor). Estamos aqui de novo, para transmitir em linguagem empolada (gravata larga pesa no pescoço e no cérebro) a mensagem divina.

"Tolices", diz o presidente do Banco Central, Paulo Lira. "Repitam aí os sofismas de sempre. Ou digam que as taxas de que o Banco Central tem conhecimento são de 5% ao mês." Os querubins obedeceram.

Na mesma entrevista a ISTOÉ, o ministro da Fazenda revela que viu anúncios em que a taxa de juros cobrada do consumidor, na venda a prestações, era de 13% ao mês. Basta multiplicar por 12, para chegar a um resultado aritmético. Longe dos números divinos do Banco Central.

Diz ainda o ministro que, apesar dos juros elevados, os balanços das empresas apresentam lucros muito bons. Os mortais teriam duas hipóteses lógicas a formular. Primeira: o ministro está se referindo às grandes empresas que especulam no open, isto é, fazem parte do paraíso; viraram agiotas também, escorchando centenas de milhares e empresas não-eleitas — e a nação. Ou às grandes cadeias de lojas, a quem foi dado o direito divino de vender a prazos de até 36 meses, a juros de 160% ao ano, roubando a freguesia, quebrando o pequeno e médio comércio, limitado a prazos de 12 meses. Uma discriminação que contraria a Constituição, que evidentemente os deuses ignoram.

Segunda hipótese: as autoridades monetárias brasileiras são mesmo divinas, fazem milagres. O mercado financeiro cobra juros escorchantes, tem lucros fabulosos. As empresas pagam juros escorchantes, têm lucros fabulosos. É o milagre da geração espontânea de lucros. Eles não saem de nenhum lugar. Os 110 milhões de brasileiros, a nação, não estão sendo sugados, lógico. E só um milagre.



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