[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  “A chance inesperada do Plano Real??

Jornal Diário da Manhã , domingo 24 de julho de 1994


A salvação do Plano Real pode vir, por incrível que pareça, exatamente da remarcação escandalosa de preços feita pelas empresas em maio e junho. Ou ainda: o Plano I-Real pode dar certo, não por causa dos caminhos planejados pela equipe FHC, mas exatamente por causa do fracasso de suas teorias. A perspectiva otimista começa a existir, embora às custas de um imenso sacrifício da sociedade, esmagada por preços abusivos e achatamento dos rendimentos. Mas, repetido essa possibilidade nada tem a ver com as diretrizes do Plano. Continua a depender de um número infinito de hipóteses, que pode ser assim sintetizado: se a sociedade brasileira realmente desistir do vício da correção monetária. Aí, meio caminho estará andado para a queda definitiva da inflação e do sucesso “aparente” do Plano I-Real.

Durante meses dizia-se nesta coluna que o Plano I-Real não existia, ou melhor, era um Plano mais “psicológico” do que “econômico”. Ele era um “salto no escuro”, irresponsável, que poderia levar o País a uma explosão inflacionária e todos seus desdobramentos. Qual a razão das críticas? O Plano é contraditório, ou simplesmente não existe como estratégia anti-inflação, porque se baseava na liberação dos preços e simultânea indexação, ou correção dos salários pela URV, em sua primeira etapa. Vale dizer: como o consumidor continuaria, nessa etapa, a dispor de poder aquisitivo, as empresas – apontava-se nesta coluna – seriam tentadas a aumentar preços puxando as taxas de inflação para cima. Hipóteses: haveria taxas de inflação mais altas, o Plano se desmoralizaria, ressurgiriam os temores de congelamento, isso provocaria novas remarcações e assim por diante. Todas essas hipóteses tinham fundamento. O Plano I-Real, portanto, era totalmente dependente do comportamento de empresários e consumidor, vale dizer, era mais um plano psicológico, do que econômico. Cheio de “se”.

A primeira hipótese, de remarcação de preços pelas empresas, se confirmou comprovando que o Plano era equivocado. Os idealizadores do Plano I-Real, já haviam concedido meses e meses de prazo para que as empresas “atualizassem” seus preços, e esperavam uma “inflação zero” quando o real fosse lançado. Não foi o que aconteceu. Houve uma remarcação alucinada na “virada” de junho.

Os abusos, porém, acabaram tendo efeitos surpreendentes, não planejados, e, no entanto, favoráveis à derrubada da inflação. O consumidor se retraiu violentamente, comprando apenas o essencial, porque os preços efetivamente estão insuportáveis para o poder de compra da maioria da população - é constrangedor ir a um supermercado e observar uma mulher do povo, dinheirinho amarfanhado na mão, postada diante da caixa registradora e esperando a funcionária dizer-lhe se (dá para pagar os míseros cinco produtos que retirou da prateleira).

A retração do consumidor, a constatação de que os preços estão absolutamente disparatados, provocaram uma “paradeira” na economia. Entra em cena a segunda conseqüência imprevista: nestas semanas, “ninguém” tem coragem de reajustar preços por temer que as vendas cairiam ainda mais.

Essa “paradeira” passou a ser a grande chance, imprevista, para o Real.

Uma chance que, repita-se, ainda continua a depender de fatores imprevisíveis, tudo na base do “salto no escuro”. Qual é o raciocínio presente?

Inflação – a “parada” nos preços, por causa da “parada” nas vendas e diante dos abusos anteriores, vai trazer taxas de inflação efetivamente mais baixas, e em queda nesses próximos dias.

Truque – a equipe econômica queria que a sociedade “esquecesse” a inflação “antiga”, antes da virada de julho.

A ajuda – é nesse ponto, exatamente, que a “porca torce o rabo”, em todos os planos econômicos brasileiros. Duas ou três gerações de brasileiros nasceram, cresceram e viveram habituados a utilizar a correção monetária, isto é, a atualização de valores de acordo com a inflação de valores de acordo com a inflação velha, e não consegue compreender como é que, em outros países, as pessoas não procuram recuperar as perdas da inflação, já que só no Brasil tem existido a correção monetária. Assim, uma grande dúvida, para o Plano I-Real, era a possibilidade de os empresários (e trabalhadores) esquecerem a inflação velha, mesmo porque ela acabou passando da casa dos 50% em junho – e obviamente muitos setores, como ocorreu em outros planos, parecia inevitável. Só que a “paradeira” dos negócios não atingiu apenas produtos e setores com preços abusivos. Desorientado, e revoltado com o clima de preços loucos, o consumidor partiu para a retração total, levando todos os setores a um “compasso de espera”.

Cabeça nova – é este o estágio atual do Plano I-Real. A “paradeira” abre caminho para taxas de inflação nestes primeiros dias menores, já que os reajustes de preços ficaram perigosos. O Governo precisa aproveitar esse momento de “compasso de espera”, para desencadear uma campanha que faça o brasileiro – empresário e trabalhador – entender que a correção monetária é um absurdo. Atenção: não adianta ficar nas frases bonitinhas, tipo “a inflação é uma ilusão”, “todos perdem com ela”, etecetera e tal. É preciso explicar como a economia funciona nos outros países sem a correção monetária e como isso provoca queda da inflação. O brasileiro vai entender que não tem sentido aumentar o preço do automóvel só porque as geadas aumentaram o preço das abobrinhas e da alface – já que as fábricas automobilísticas não usam esses produtos como matéria-prima em suas linhas de produção.

Exemplo – como é nos outros países? Se a seca destrói colheitas, e os preços da soja e do trigo são aumentados, o que acontece? Suponha-se que o aumento seja de 25% e que esses produtos “pesem” só 2% no cálculo da taxa de inflação. Assim os 25% de alta acabaram trazendo uns 5% de inflação (isto é 250% de 2%). No Brasil, todos os segmentos da economia procurarão aumentar seus preços em 5% para “não perderem” da inflação: não só a indústria, como médicos, escolas, profissionais liberais em geral, ou tarifas públicas e assim por diante. Em resumo: a alta de 5% provocada pela soja e trigo, vira uma inflação de 5%, disseminada por todos os setores da economia. E lá fora? Lá, o funcionamento do mercado acaba “apagando” a inflação provocada pelos dois produtos. Por que? Lá, os salários e rendimentos não serão reajustados nos 5%. Logo, as pessoas terão que viver com os mesmos ganhos, e procurarem compensar de alguma forma a alta da soja e do trigo. Há dois caminhos. De “mercado”: no primeiro, surge a redução nas compras de soja e trigo, cujos preços assim acabam recuando, mesmo que parcialmente (e derrubando a inflação no mês seguinte). A segunda alternativa para o consumidor é manter um consumo mínimo de soja e milho e, para isso, reduzir o consumo de outros produtos, cujos preços igualmente cairão, compensando a inflação provocada pelos dois alimentos. É assim que se vive sem correção monetária. E sem inflação.

Todos os planos de combate à inflação fracassaram no Brasil exatamente porque tentaram ignorar que o empresário brasileiro, a sociedade brasileira, não abre mão da correção monetária, dos reajustes com base na inflação velha. Se os idealizadores do Plano I-Real tomarem consciência dessa obviedade, e aproveitarem a chance atual, haverá finalmente avanços contra a inflação.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil