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  O Brasil, entre a crise e as diretas

Jornal Diário da Manhã , domingo 23 de outubro de 1983


Depois dos acontecimentos da última semana, para onde caminha o País? Na área econômica, o Brasil agora está efetivamente ameaçado de chegar à moratória, não porque o governo se dispusesse a declará-la, mas por falta absoluta de dólares para pagar seus compromissos externos ante a retração dos bancos internacionais. Ainda na área econômica, o achatamento salarial promovido pelo 2.064 reduzirá o poder de compra de amplas faixas da população, provocando queda da venda dos produtos industriais (embora parcialmente compensada pela provável expansão da demanda no interior, graças aos bons preços dos produtos agrícolas, e também pelo avanço nas exportações). A crise econômica – sobretudo nos Estados industrializados do Sul – tem, assim, todas as chances de sofrer um aprofundamento, agravando-se o desemprego e as tensões sociais.

Na área política, em conseqüência mesmo dos problemas econômicos, os pontos de atrito entre governo e oposição também tendem a crescer. E o descontentamento popular tende a levar, como já está levando, à ampliação de “medidas de emergência”, eventualmente estendidas a outras regiões do País.

Para que esse quadro não se imponha ao País, levando de roldão o próprio processo de abertura econômica, há uma única alternativa: um acordo, fruto de negociações entre governo e oposições, ou entre governo e políticos. E é aqui que a roda está pegando, em função, aparentemente, da sucessão presidencial.

Vai ganhando corpo, entre a classe política, a tese de que quanto mais a crise se grava, mais o “sistema” se convence de que o governo não dispõe de credibilidade suficiente para afastar o caos e será forçado, então, a finalmente adotar as eleições diretas para que a sociedade volte a se engajar na busca de solução para os problemas. Os efeitos dessa tese têm sido devastadores. Vê-se, de um lado, segmentos da oposição firmando posições “radicais”, jogando na futura realização de eleições diretas: a expectativa é que essa “intransigência” renda votos, amanhã, com seu partido apresentado, aos leitores, as credenciais de “defensor do povo”, adversário inconteste do “achatamento salarial”. De outro lado, e compreensivelmente, surgem os “dissidentes do PDS”, subitamente travestidos de defensores da classe trabalhadora, igualmente fechados a negociações – porque, no caso de eleições diretas (e mesmo para conquista de votos dos convencionais do PDS, no caso de indiretas), seu candidato poderá dizer, em praça pública, que “não pactuou” com o achatamento e a recessão.

À beira do abismo, o País observa segmentos da classe política a brincarem com fogo, fiados na realização das eleições diretas. A evolução dos acontecimentos, com a crise ganhando contornos cada vez mais claros, autoriza perguntar se o jogo não é excessivamente perigoso. Se a obsessão com uma vitória em eventuais diretas não pode levar à perda de tudo.

COM PROPOSTAS
Já se disse, mas é preciso repetir: negociar significa concessões de ambas as partes, significa dizer “Você quer isso, eu dou a metade disso. Mas você me dá aquilo”. Quando o governo encaminhou os decretos 2.024 e 2.045, pretendendo “resolver” a crise brasileira através do simples achatamento dos salários, ele não estava negociando. Os defensores do “achatamento” – sobretudo ministros e ex-ministros – estavam, ainda, mentindo à Nação, ao afirmarem que até em países de sindicalismo forte, com tendências socialistas, como Itália e Espanha, os trabalhadores aceitaram a redução salarial para superação da crise. Nesses países, houve negociação: os sindicatos aceitaram efetivamente a redução dos salários, mas após longas conversações em que foram colocadas as exigências dos trabalhadores.

Quais eram elas? Antes de mais nada, que a inflação caísse mesmo, a um nível previamente combinado com o governo, para que o “achatamento” salarial fosse realmente temporário e para que a perda de poder aquisitivo do trabalhador realmente servisse aos interesses do País – e não para engordar os lucros das empresas. Além disso, os trabalhadores exigiram proteção às faixas mais baixas de salário, redução de impostos nessas faixas, barateamento de produtos essenciais, e aumento de impostos para segmentos da população até então considerados privilegiados.

Em resumo: os sindicatos de tendências socialistas, da Itália e Espanha aceitaram que a crise nacional exigia o achatamento salarial, como dizia o governo. Mas exigiram que outros segmentos sociais também arcassem com o ônus da crise. Houve negociação. Houve acordo.

UM, DOIS, MUITOS DELFINS
Pode-se dizer com honestidade, que isso aconteceu no Brasil, depois que o governo resolveu abrir negociações em torno do 2.045? Durante todo o processo, e até agora o que tem feito o PMDB principalmente? Diz que negocia mas que “não aceita nada que implique em achatamento salarial”. A “firmeza” pode enganar a muitos, mas não é descabido perguntar: por acaso os sindicatos socialistas da Itália e Espanha, a massa trabalhadora altamente politizada desses países, são todos frouxos, ou o PMDB, é que “empacou” com fins eleitoreiros (para não avançar outras hipóteses)?

Tem-se uma crise, concreta. Tem-se um receituário de medidas econômicas, concreto. O País precisa definir uma estratégia para superar o impasse, rapidamente. Rapidamente. O PMDB martela monocordicamente na tecla de que é preciso mudanças totais, que “quem fez a crise, que a resolva”, etc. etc. do lado de cá da cerca, o PMDB repete a mesma atitude do ministro Delfim Netto, que do lado de lá da cerca, passou e passa o tempo todo atribuindo os problemas nacionais à “crise mundial”. No final da conta, são atitudes idênticas. Nada se fez, nada se faz, porque “o problema tem que ser enfrentado de maneira global”. Com seu imobilismo, o ministro levou o País ao caos econômico. Com eu imobilismo, o PMDB pode levar o País ao caos político.

Assim como aceitou negociar o 2.045, é evidente que o governo aceitaria negociar também o 2.064, isto é, aceitaria substitutivos que previssem menor “achatamento salarial”, a par de propostas de medidas em outras áreas. Resta ver se o PMDB se dispõe a negociar, ou continuará de olhos postos no futuro. Que pode não haver.



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