Revista Nova , junho de 1983
A recuperação gradativa da economia mundial é ansiosamente observada, ao Norte e ao Sul do equador, após dois anos de recessão e calamitoso aumento do desemprego, que, mesmo nos países ricos, deixaram mais de 20 milhões de pessoas sem trabalho. O pesadelo desses tempos difíceis ficou mesmo para trás? Ou os mesmos fenômenos, de fechamento de fábricas, demissões em massa, em todo o mundo, voltarão a ocupar o notíciário? Infelizmente, esta última hipótese parece mais provável – ainda que não se possa prever quando isso ocorrerá. As crises se repetirão não por culpa de uma fatalidade. Mas por culpa dos próprios governantes, dos próprios países ricos, principalmente, que se se recusam a aceitar que a economia mundial precisa sofrer grandes mudanças, em profundidade, para evitar crises periódicas. O mundo, como apontam número crescente de pensadores sociais, instituições independentes de pesquisa e homens púbicos, precisa de uma Nova Ordem Econômica Mundial.
O que propõem os defensores dessa idéia? Eles desejam, basicamente, que os governos dos países ricos e dos países pobres cheguem a acordos, para que o crescimento econômico mundial não sofra altos e baixos. E, principalmente, para que não haja o tremendo desperdício de recursos que hoje se verifica – como é o o caso de os governos dos países ricos pagarem a seus agricultores para deixarem de plantar, para reduzir a produção, quando existe mais de meio bilhão de pessoas vítimas da fome, nos países pobres. Se você parar para pensar, vai ver que essa situação paradoxal é uma autêntica “maluquice”, em escala internacional. Você sempre ouviu dizer, por exemplo, que o grande problema da humanidade é a falta de recursos, de dinheiro, para explorar novas atividades econômicas, gerar mais renda, criar mais empregos. No entanto, quando um governo gasta recursos para que um agricultor “não plante”, ele está desperdiçando dinheiro duplamente: esses gastos são para reduzir as atividades econômicas e o emprego não apenas na agricultura – mas também nas indústrias que fornecem ferramentas, adubos, inseticidas, etc. E, indo mais longe, a redução de empregos e de renda se espraia por outras áreas econômicas, já que todas essas pessoas (da agricultura e indústrias fornecedoras), se estivessem empregadas, consumiriam mais roupas, mais eletrodomésticos, mais sapatos, tudo enfim – gerando, também, renda e empregos em outras áreas, dentro do chamado “efeito multiplicador” sobre a economia.
A opinião pública não percebe, mas – ao contrário do que se pensa – a economia e a política econômica não são marcadas pela racionalidade, pela lógica, mas por maluquices desse tipo. Você pode entender isso muito bem, com mais uns exemplos. Volte-se ao “mito” de que o que falta no mundo é dinheiro, são recursos, para, além da expansão na produção de alimentos, construir novas fábricas, abrir novas minas, instalar hospitais e escolas, ou criar empregos e gerar bens e serviços. Ora, é fácil entender que quanto mais os países usarem máquinas para produzir, quando mais os países sofisticarem essas máquinas (chegando aos robôs), mais dinheiro precisarão para montar fábricas ou abrir minas, sobrando menos dinheiro para maior número de fábricas e minas ou hospitais e escolas. E, o que é mais grave, , criando cada vez menos empregos – ou, na verdade, substituindo trabalhadores por equipamentos. Gasta-se, em resumo, para criar desemprego. O problema não pára aí: quanto mais empregos se criassem, maior seria, obviamente, o número de consumidores com renda para comprar toda a sorte de bens, isto é, para permitir que a produção continuasse a crescer – evitando-se que a economia entrasse em crises periódicas.
Estudos realizados nos EUA e na Europa, no final do ano passado, mostram claramente os efeitos essas “maluquices”. Pesquisas profundas mostraram que – sempre ao contrário do que se pensa – o incrível crescimento de desemprego nos países ricos não é um fenômeno passageiro, conseqüência da recessão dos últimos dois anos. Mesmo que a recuperação mundial se acelere, o número de desempregados cairá apenas modestamente, pois o problema é mais profundo: a geração de empregos não está acompanhando nem mesmo o crescimento da oferta de mão-de-obra naqueles países ricos (apesar desse crescimento ser baixo, por causa do também baixo número de nascimentos, já nas duas últimas décadas).
Como romper esse círculo vicioso? Os defensores da Nova Ordem Econômica Mundial propõem uma espécie de “super-governo”, mundial, que traçasse programas de cooperação econômica que atendesse aos interesses de todos os países, ricos e pobres. Dentro dos mecanismos que poderiam ser chamados de “diálogo Norte-Sul” (isto é, hemisfério rico e hemisfério pobre), os países ricos concordariam em “reservar” para os países pobres a produção de alimentos, minérios e mesmo produtos industriais mais simples e de produção mais “barata”: tecidos, calçados, certos produtos eletroeletrônicos ou componentes, peças para máquinas ou automóveis, etc. Com dois detalhes, porém: os países ricos se comprometeriam a financiar essa produção e, o que é o mais importante de tudo, se comprometeriam a pagar preços satisfatórios por esses produtos, em dólares. No caso dos produtos agrícolas e minérios, não haveria as atuais oscilações de preços, com brutais quedas que “evaporam” os dólares com que os países (como o Brasil) contavam para pagar os seus compromissos externos – e crescer.
O que os países ricos ganhariam com isso? Se a economia dos países pobres crescesse de forma estável, gerando empregos, renda, haveria encomendas de máquinas e determinados bens produzidos nos países ricos.
Em poucas palavras, com a cooperação Norte-Sul, haveria crescimento estável, mais empregos, mais renda, mais consumo, tanto nos países ricos como nos pobres. A economia mundial não sofreria crises periódicas.
O que impede que se consiga isso? Tente responder você mesma.