Revista Caros Amigos , junho de 2000
Faça como Chico Buarque: comece a dizer não
Desde a posse de FHC, quem percorresse o Brasil de norte a sul, para participar de debates ou seminários, encontrava sempre o mesmo quadro. Sindicalistas, estudantes, professores, agricultores, empresários e até jornalistas a se queixarem da total falta de espaço para “o outro lado”, a contestação da política oficial, nos meios de comunicação. A unanimidade em torno da constatação do “alinhamento” da imprensa, porém, não ia além do queixume e da sensação de impotência, traduzindo-se em total conformismo diante da situação. Uma atitude que, por sua vez, desembocava em um cinismo amargo sobre “nossa profissão”, e a pretensa inevitabilidade de se dobrar aos interesses defendidos nestes últimos anos pelas empresas jornalísticas. Sem apelar para o otimismo excessivo, pode-se sentir que há mudanças no ar. O longo período de passividade – de longe, muitomais tenebroso do que os anos de ditadura militar – parece aproximar-se do fim. Nas salas de aulas do curso de jornalismo, nos debates promovidos por sindicatos ou entidades empresariais, nas próprias ruas e conversas com o cidadão comum, o conformismo submisso vai sendo substituído por sugestões de reação – mesmo à custa da perda de emprego, no caso de estudantes de jornalismo já trabalhando em redações. Ironicamente, a metamorfose foi provocada pelo próprio governo FHC e meios de comunicação aliados que, decididamente, perderam a noção de qualquer limite, na desavergonhada cobertura da pancadaria em Porto Seguro, e nas sórdidas reportagens sobre o MST, “plantadas” pelo Planalto nas revistas semanais, em uma primeira etapa, e nos grandes jornais, logo a seguir. Houve um claro erro de cálculo, na ofensiva “contra a baderna”, “contra os comunistas” – tudo a sugerir que o Brasil precisa de um presidente da República com poderes semelhantes dos de Fujimore. A manipulação sutil dos últimos anos, representada por manchetes enganosas e “pinçamentos” de dados otimistas, foi substituída pelo ataque debochado, a deformação total da informação. Resultado: até o cidadão comum, enganado pelos formadores nos últimos anos, se deu conta da manobra. E a vontade de reagir tomou o lugar da passividade, no caso dos discordantes. De nada vale questionar se o próprio momento vivido pelo país, com a sociedade saturada pelos anos de recessão, desemprego, corrupção, não é responsável pela transformação. Pode-se contra-argumentar, apenas como dever de ofício, que outros momentos semelhantes, como as denúncias sobre o grampo do BNDES e seu subsequente “esquecimento” pela grande imprensa, não provocaram a mesma comoção. Constatava-se, resignava-se, e aceitava-se a “realidade” nacional. O que importa, nessa “virada”, é que ela seja ampliada, cristalizada, com a participação e articulação dos “excluídos do debate” nos últimos naos. A reação tem-se manifestado de forma espontânea, geralmente ainda individual, na troca de e-mails ou telefonemas, nos bate-papos ou ao longo de aulas e debates. Não é o suficiente, ainda, para desencadear uma onda de pressões que levem os meios de comunicação a abandonar o comportamento de lesa-sociedade dos últimos anos. PS: se surgisse a decisão de escolher um slogan para esse movimento da sociedade, nossa sugestão apontaria para o exemplo do sempre límpido Chico Buarque, que embargou um vídeo preparado para a Feira de Hannover, exigindo que sua música O que Será “fosse excluída da trilha sonora, conforme noticiado pelo Estadão. O slogan? Algo na linha “Faça como o Chico. Comece a dizer não”. Obrigado, Chico.
Na trilha argentina
Repentindo: quem quiser saber realmente o que está acontecendo com a economia do país, deve ler sempre as últimas quatro linhas das notícias. É lá que os jornalistas escondem o que é importante. No final de maio, todas as manchetes anunciavam qu eo Tesouro obteve outro saldo positivo em suas contas, em abril, com as receitas superando as despesas em 4 bilhões de reais. No texto, aquela repetição enjoativa, de que o Brasil está fazendo o ajuste, vai cumprir a meta do FMI, de tantos por cento do PIB pra cá, outros tantos por cento do PIB pra lá e eteceterá e tal. Nas últimas quatro linhas, a infomração do secretário do Tesouro brasileiro, Fábio Barbosa: em abril, a dívida líquida do Tesouro aumentou em 13,1 bilhões de reais, por causa da “expansão da dívida externa” e de “juros incorporados, no valor de 6,2 bilhões de reais”. O que significa esta última cifra? Ela ajuda a entender o pantanal em que o Brasil está atolado, sem saída, a menos que romap com o FMI. Por “juros incorporados”, entendam-se juros que o governo não pagou com dinheiro vivo, isto é, precisou emitir títulos, mais “papagaios”, para cobri-los. E o saldo de 4 bilhões de reais? Foi usado, sim, para pagar 4 bilhões em juros – além dos 6,1 bilhões de reais “papagueados”. Ou, em resumo: no total, os juros chegaram a 10,2 bilhões de reais. Em um mês. O brasil segue a trilha da Argentina, que anunciou novo “pacote de ajustes”, agora cortando aposentadorias e reduzindo os vencimentos dos funcionários. A Argentina, antes mesmo do Brasil, iniciou as privatizações, apresentadas como uma “reforma” para “reduzir a dívida do governo e eliminar o rombo”. A Argentina vendeu tudo: ferrovias, empresas de energia, telefônicas, portos, e até sua Petrobrás (a YPF) e seus equivalentes do Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Vendeu tudo, tudo. Agora, está de calças na mão, nas mãos do FMI, sem patrimônio e sem o lucro das estatais, que ajudavama reduzir o déficit (como Malan, na carta de intenções com o FMI, reconheceu que acontecia no Brasil, lembrando-se que a Telebrás teve um lucro de 4 bilhões de reais em 1997, último ano antes da privatização). A pivatização não reduziu nem a dívida nem o déficit da Argentina. Exatamente como no Brasil, com o Tesouro devorado pelos juros mesmo depois da venda da maioria das estatais – e até do início do desmantelamento da Petrobrás, com a entrega, a multinacionais, de áreas riquíssimas em petróleo que a empresa descobriu. E o Congresso Nacional, hem?
Sem o FMI
O mundo está assistindo a taxas de crescimento econômico fantástico nos países que desafiaram o FMI, Clinton, países ricos e as imposições neoliberais, de abertura de mercado às multinacionais e suas importações, e livre circulação dos capitais especulativos. No primeiro trimestre do ano, a Malásia, que estabeleceu controles sobre os capitais, cresceu 11,7 por cento. A Coréia do Sul, que reduziu rapidamente as taxas de juros após a crise de 1997, cresceu fantásticos 12,5 por cento. A Rússia, que decretou a moratória em agosto de 1998, cresceu 8%. Ah, sim: e a China continua a crescer no ritmo de 8 por cento ao ano. (Quem se lembra da reportagem da famosa revista The Economist, dois anos atrás, dizendo que o fabuloso crescimento chinês estava com os dias contados, que o país caminhava para uma grande crise? Era tudo propaganda vergonhosa contra os países que não aceitavam as imposições neoliberais...Na guerra neoliberal, pelo assalto dos paísesricos contra o patrimônio dos demais, vale tudo).