[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto O que somos hoje? Um quintal dos países ricos? Não. Somos um curral

  Afinal, o adeus ao pandemônio

quarta-feira 18 de março de 1992


Catorze meses sem nenhum “choque econômico”. O brasileiro ainda não se deu conta, mas há aí um verdadeiro motivo para comemorações, tais são as mudanças que o fenômeno vai provocar (e já está provocando) na vida das empresas e do povo. É só parar para pensar que as razões para festejar aparecem. A cada mês que passa, o Brasil – e isso é mais importante até do que própria queda da inflação – vai-se livrando do pandemônio em que a economia foi mergulhada, com os “choques”. O brasileiro, aos poucos, vai dizendo adeus às heranças malditas deixadas pelos pacotaços. Os saltos de até 800% nos reajustes da casa própria – porque as prestações haviam sofrido congelamento. Os saltos e até 400% nos reajustes semestrais de aluguéis – pelo mesmo motivo. A vergonha do salário mínimo reajustado somente a cada três meses. A vergonha das aposentadorias do INSS congeladas por meses. A perda de poder aquisitivo do funcionalismo federal e estadual – com os ganhos achatados por emendinhas e emendões. O estrangulamento do Judiciário, submerso em milhões de ações contra decisões absurdas contidas nos “choques”. Já deu para entender o tamanho do pandemônio que estava assolando o Brasil? Por força dos choques, e em nome do combate à inflação, arbitrariedades de toda sorte eram cometidas, massacrando empresas e trabalhadores. Eram cometidas e, em última análise, em que pese a crescente reação dos últimos meses, acabavam sendo engolidas como se realmente os governantes detivessem o poder de massacrar, condenar à miséria, à doença, milhões e milhões de cidadãos. Em que país civilizado se aceitariam que aposentadorias, vencimentos do funcionalismo, salários dos trabalhadores fossem periodicamente garfados? E que o pecúlio de milhões de pessoas fosse brutalmente diminuído, num verdadeiro assalto, por força de “expurgos” na correção monetária (que em casos como o do Fundo de Garantia “furtaram” até 65% do seu valor ao longo dos anos? Para cada cem que seu dono deveria ter, restam apenas 35...). É isso aí. É preciso comemorar a ausência de novos “choques”, sim – e lutar vigorosamente contra os seus profetas. Só agora o Brasil vai saindo do pandemônio, e seu povo começa a sentir o gostinho de viver dentro de certa rotina, com problemas, óbvio, mas sem precisar gastar energias, e sem desgastar-se com a revolta provocada por absurdas decisões governamentais. Tudo muda, quando não há choques nem perspectiva de choques. As engrenagens da economia se movimentam, as soluções vão surgindo naturalmente. Sem medo de congelamento, as empresas não precisam carregar a mão nos preços. As negociações entre clientes e fornecedores se baseiam em números e objetivos reais: quem quer conquistar mercados, procura comprar mais barato, porque também quer vender mais barato. Briga-se contra expectativas fantásticas de inflação embutidas nos preços, forçando a sua baixa. E assim por diante. É um novo país que está às portas. A própria normalização da vida econômica, por força de ausência de choques, está permitindo a queda da inflação, numa velocidade mais rápida do que o próprio governo teria a coragem de admitir. Não é difícil que a taxa de março feche abaixo dos 17%. O temor de uma recaída inflacionária em abril, apregoada por algumas cassandras, não se justifica. Antes de mais nada, porque a própria queda das taxas em fevereiro e março acabará resultando em reajustes menores em abril, em todos os setores onde existe indexação formal ou informal. Afirmar que vestuário e aluguéis, sozinhos, pode provocar um repique é ignorar que, mesmo se houvesse grandes altas para esses itens, elas poderiam ser compensadas pela tendência baixista em outras áreas – que têm “peso” maior no cálculo do índice. No caso dos aluguéis, aliás, a intensidade da esperada alta ainda é uma incógnita. É verdade que os reajustes de aluguéis que “entram” no cálculo das taxas de inflação se referem principalmente a imóveis já alugados, e eles, em sua grande maioria, deverão sofrer uma revisão forte, relativa ao semestre (para aluguéis descongelados em setembro). Contudo, não pode ser ignorado o que vem acontecendo no mercado de locações, com quedas até no valor nominal de aluguéis pedidos: essa tendência tem levado proprietários a fazer acordos com os inquilinos atuais, optando-se por reajustes abaixo dos índices legais. Finalmente, é preciso atentar para o fato de que a queda da inflação em fevereiro e março vai levar indústria e comércio a “desembutirem” sobre preços que haviam adotado com base em expectativas de inflação em alta e que não se confirmaram. Com a inflação em queda, e gradativamente varridos os resíduos dos choques anteriores, o País vai ficar liberado, com a cabeça disponível para discutir problemas que têm persistido ao longo de décadas. Em lugar de brigar contra o “achatamento” dos salários, os movimentos sindicais vão poder dar atenção, exigir atenção, para as mazelas do FGTS, do INSS, da assistência à saúde. Empresários e políticos, por sua vez, ganharão tempo e energia para influenciar a escolha do modelo de desenvolvimento econômico e social que deve ser implantado, buscando-se atender os reais desejos da sociedade. São as vantagens do fim do pandemônio. “Choques”, nunca mais.



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