[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Desgoverno no reino da hipocrisia

quarta-feira 18 de setembro de 1991


Eleito “Empresário do Ano” por seus pares, o industrial Ricardo Semler fornece, com seus discursos, um bom roteiro para reflexão sobre o momento atual e seus personagens: presidente Collor, jornais, TV, empresários, partidos políticos situacionistas e da oposição. Em lugar de responsabilizar apenas Brasília pela chamada crise Brasileira, Semler afunda o dedo na ferida e cobra mudanças na mentalidade empresarial, de forma contundente. Para ele, “não estaríamos nessa situação se os donos do dinheiro deste País tivessem dado um basta às negociatas, à corrupção e ao imediatismo que nos caracterizam hoje”. E mais: “que não gritemos sobre o excesso de corrupção, quando somos as primordiais fontes de propina”. Perfeito. Diagnóstico perfeito, que tem sido furtado à sociedade brasileira. Este Brasil é o País da voz passiva, isto é, aqui não há culpados, “as coisas acontecem”, como se ninguém fosse responsável por elas. Mais claramente: fala-se, insiste-se em que órgãos dos governos, funcionários dos governos são “corruptos”. Mas se esconde, se ignora hipocritamente que não há apenas “corruptos”, mas também, e principalmente, “corruptores”. Ignora-se, hipocritamente, que muitas vezes funcionários são até virtualmente forçados a praticar atos de “corrupção” graças ao imenso poder políticos dos “corruptores” – que são, portanto, eles sim, os verdadeiros responsáveis pela corrupção no País. Neste reino tropical da hipocrisia, no entanto – como Semler aponta neste momento -, faz-se de conta que os criminosos são os “corruptos”, omitindo-se que os lucros fantásticos com as irregularidades e as fraudes beneficiam os corruptores – e não seus parceiros. Basta olhar ao redor, para ver como grupos empresariais se beneficiaram e se beneficiam do seu poderio corruptor – e tem sido esse poderio que mantém o País na situação atual. Diante desse quadro, é tragicômico verificar a toada da imprensa contra a tal “República de Alagoas”, como é tragicômico ver líderes e governadores de partidos de oposição a Collor cobrar a “moralização”, alegando que a situação atual está criando um quadro de desgoverno, de “ingovernabilidade”. Ora, a hipocrisia tem limites. E a hipocrisia precisa receber limites, neste momento, pois ela passou a ser usada como arma política, maquiavelicamente manipulada para tentar criar uma situação que, a muito analistas, já se assemelha à tentativa de um “golpe branco”. Por que o bombardeio contra o governo Collor, e o silêncio nos demais níveis, como as situações para quais o empresário Semler chama a atenção? Afinal, o PMDB e outros partidos chamados “de oposição” ganharam eleições para governadores em grande número de Estados desde 1982 – e o que mudou de fato nesses Estados? Irados articulistas pró-PMDB e pró-tucanos cobram a “reforma administrativa” de Collor. E cadê a reforma dos governos estaduais? No caso de São Paulo, está engavetada desde os idos de 1982... Dizem que o governo federal está vendendo imóveis lentamente... E os governadores da oposição? No caso de São Paulo, o levantamento foi feito já no governo Montoro, em 1982 – mas a imprensa nunca conseguiu colocar as mãos na relação de imóveis emprestados, cedidos, alugados a preços irrisórios a terceiros... Ao longo de oito anos, nunca se conseguiu saber nem mesmo quem lucrava com os prejuízos do Estado... Na verdade, há agora uma explosão de casos de corrupção ou indícios de corrupção que teriam marcado governos também dos chamados partidos progressistas nos últimos anos, e, até agora, isso é, até a posse dos atuais governadores. Perguntas que Semler faria: os líderes desses partidos, que agora atacam a “República das Alagoas”, não sabiam disso? As Assembléias não sabiam disso? Os empresários (que lucram com as fraudes e falcatruas, como mostra Semler) não sabiam disso? A imprensa não sabia disso? Ora, por que toda essa indignação contra a “República das Alagoas”? Entenda-se bem. Entenda-se muito bem: não se tratar de fazer, aqui, a “defesa” dos possíveis atos de corrupção ou incompetência do governo Collor. Isso seria grotesco. O objetivo é mostrar que toda a “ofensiva” contra o governo Collor é fabricada, uma autêntica tentativa de “golpe branco”. Alimentada por grupos empresariais, veículos de comunicação, lideranças políticas que fecham os olhos, ou tiram proveito mesmo, anos a fio, da corrupção e do desgoverno também a nível estadual. Tentar “golpes brancos” contra o governo Collor não resolverá os problemas nacionais. Ela só será superada quando os apelos como os de Semler forem ouvidos por seus pares. Quando os grupos empresariais deixaram de corromper – ou apoiarem o combate à corrupção. Quando a imprensa estiver atenta ao que acontece com projetos de governadores, encaminhados às Assembléias estaduais, que deixariam de aprovar projetos que enriquecem certos grupos. Quando os jornalistas tiveram e coragem de criticar aberrações de governos ditos “progressistas”, com a mesma intensidade que cobram, hoje, o governo Collor. O País não precisa de “entendimento”. Precisa de menos hipocrisia. E covardia.



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