Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 28 de outubro de 1983
O corte de cana no Oeste de São Paulo está sendo prejudicado pela falta de mão-de-obra, com as usinas sendo forçadas a mandar buscar famílias de “bóias-frias” a até 150km de distância para trabalhar nas lavouras. Aqui mesmo em Goiânia, com o lançamento do “programa comodato”, fazendeiros confessam estar dispostos a ceder áreas de suas propriedades, para cultivo por terceiros, porque dispõem de terras ociosas em conseqüência da dificuldade de recrutar mão-de-obra para trabalhá-las. Indo um pouquinho mais longe: já há três anos, a Federação da Agricultura de Pernambuco pedia providências, ao governo de seu Estado, para “estancar” as correntes migratórias para o Sul – obviamente, porque começava a faltar mão-de-obra na agricultura regional.
Esses dados podem contradizer as análises sobre os problemas do êxodo rural, o desemprego e a miséria no campo, e a conseqüente marginalização de ex-lavradores, nas cidades. A contradição não existe: o que existe, na verdade, é a incapacidade de enxergar o que existe por trás dela, incorrendo-se em uma abordagem velha, anacrônica, do problema agrícola no País.
A escassez de mão-de-obra no campo e a existência de milhões de famílias marginalizadas, nas cidades, são as duas faces do mesmo problema. A agricultura, as condições de vida no campo já não oferecem atrativos à esmagadora maioria da população – mesmo as parcelas marginalizadas, que preferem a miséria urbana à volta à lavoura.
É evidente que é possível (e é preciso) reverter esse quadro. Mas ele serve para mostrar a superficialidade com que se agita a bandeira da “reforma agrária”, assim entendida a “distribuição de terras aos que nela trabalham”, como reza o “slogan”.
É papel das oposições exercerem pressão para a correção de distorções e injustiças, dentro da sociedade. Não resta dúvida, porém, de que essas transformações somente serão obtidas com propostas sérias, aprofundadas, e não meras “palavras de ordem”. A volta de contingentes da população ao campo, e sua fixação efetiva na agricultura, não dependem apenas da “distribuição de terras”. Dependem, isso sim, de mudanças no crédito rural (principalmente em termos de acesso), da oferta de tecnologia adequada (que não é a “multinacional”), da garantia de remuneração adequada – e, principalmente, de novas condições de vida em termos de moradia, educação e assistência médica e de legislação trabalhista. Lógico que, enunciadas assim, essas diretrizes soam como o óbvio – e são mesmo. Mas são o óbvio não implantado, até hoje. E que somente se transformariam em realidade se as falhas e lacunas hoje existentes nessas áreas fossem permanentemente estudadas e apontadas, com propostas para sua supressão, ao País.
Brandir “slogans” é fácil. E preguiçosamente cômodo.