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  Acúmulo de novos pedidos reativa produção industrial

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 4 de fevereiro de 1982


As vendas ao consumidor superaram as ex­pectativas em dezembro e janeiro, esgotando os estoques de bens de consumo duráveis — ele­trodomésticos, móveis, utilidades domésticas — do comércio e da indústria. Hoje, ao tentar refazer seus estoques, o comércio é surpreen­dido com o aviso, por parte dos fabricantes, de que não há mercadoria para pronta entrega: "É preciso entrar na programação de encomendas. "Esse novo e inesperado quadro abre pers­pectivas imediatas de crescimento para a produção industrial e para a redução do desem­prego".

A tendência, aliás, deverá ser retratada já nas estatísticas sobre o desempenho da economia em janeiro, podendo-se lembrar que uma pesquisa da Fiesp acusou aumento no nível de emprego na indústria paulista na terceira se­mana de janeiro, pela primeira vez em prati­camente um ano.

A perspectiva de retomada da economia é acompanhada, no entanto, de um aspecto negativo para o consumidor, e para o combate à inflação: os novos pedidos de mercadorias en­tregues às fábricas estão sendo submetidos a novas tabelas, com aumentos generalizados de preços. O que explicaria, também, o reaquecimento da inflação no mês de janeiro. Apesar de admitirem que há escassez de mer­cadorias, os empresários continuam cautelo­sos, ou mesmo pessimistas, em relação às ten­dências da economia para 1982, não acreditan­do que a "reativação" tenha chegado.

Para o economista Sílvio Luiz Bresser Pereira, do Grupo Pão de Açúcar, as medidas adotadas pelo governo no final do ano passado foram insuficientes para superar o quadro recessivo em que a economia mergulhou no transcorrer de 1981. A atual escassez de mercadorias, diz ele, não deve ser interpretada como um sintoma de reaquecimento da deman­da: os elevadíssimos juros cobrados também do consumidor continuam a impedir suas com­pras. O que ocorreu, aponta Bresser Pereira, é que a indústria e o comércio haviam reduzido seus estoques a um nível mínimo, no final de 1981, exatamente porque o custo do dinheiro onerava a estocagem e, ante a retração da demanda, as empresas temiam enfrentar "en­calhes", por menores que fossem, que as obrigariam a novas vendas com preços redu­zidos, no começo de 82, como ocorrera em 81.

Na mesma linha de raciocínio, Bresser Pereira lembra que a indústria reduziu não apenas seus estoques, mas a própria produção a níveis extremamente baixos, ajustando-se à situação do mercado, em 1981: "Qualquer au­mento na produção neste momento, por isso mesmo — diz ele — não poderá ser interpretado como reativação, mas apenas uma previsível melhora em relação aos péssimos resultados do ano passado."

A interpretação de Bresser Pereira coincide comas análises de líderes empresariais da área da Fiesp, para os quais a reativação da eco­nomia só virá no momento em que o governo se dispuser a adotar medidas para estimular a demanda, e entre as quais figura com destaque a redução das taxas de juros. Essa análise, no entanto, continua a encontrar objeções em Brasília: o ministro do Planejamento, Delfim Neto, descartou recentemente a possibilidade — admitida anteriormente — de dar um "assoprãozinho" para ajudar a ativar a demanda, e a economia.

A mudança de disposição gover­namental se basearia, principalmente, nos resultados das vendas de dezembro e janeiro, interpretados como um sintoma de que a eco­nomia já voltou a caminhar, naturalmente, sem necessidade de estímulos extras. Embora ad­mitindo que a produção havia atingido nível ex­tremamente baixo, o Planejamento tem seus contra-argumentos: "O fato concreto é que a produção deverá crescer, e o emprego também, nas áreas onde se constata escassez de mer­cadorias.

Como um setor sempre influencia o outro, dentro da economia, a recuperação deverá generalizar-se, ao longo do tempo’’. A posição oficial tem uma explicação: teme-se "dar conta" à economia e, com isso, reaquecer a demanda, perdendo-se o controle da inflação (e da dívida externa). Uma preocu­pação que certamente se intensificará em Brasília, daqui para a frente:

— Durante o ano passado, conta Bresser Pereira, as indústrias aumentaram os preços, nas "tabelas" encaminhadas ao governo e Fun­dação Getúlio Vargas, mas continuaram cobrando os preços "velhos", na hora de vender seus produtos ao comércio, que, por isso mes­mo, também conseguiu continuar cobrando preços mais baixos, na venda ao consumidor. Agora, com o esgotamento dos estoques, as in­dústrias passaram a cobrar, do comércio, os preços que deveriam estar vigorando desde o ano passado. Com isso, os preços ao consumidor estão sendo majorados, podendo-se prever for­tes pressões sobre os índices também em fe­vereiro.

O alto índice de inflação no mês de janeiro, portanto, não reflete na verdade toda a exten­são da elevação de preços ocorrida no mês: ele engloba apenas o aumento de custos para o con­sumidor, no varejo. A alta de preços ocorrida no atacado, na venda da indústria ao comércio, não foi computada agora - porque já havia sido incluída, pela Fundação Getúlio Vargas, nos ín­dices de novembro, época em que a indústria divulgou suas novas tabelas, sem aplicá-las na prática.



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