Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 14 de outubro de 1983
ESMOLA DEMAIS – em editorial, o New York Times defende a tese de que países como o Brasil e Argentina enfrentarão imensa crise econômica e social para pagar sua dívida externa. Propõe, assim, que seus débitos para com os bancos privados sejam transferidos para instituições internacionais, como o Banco Mundial ou o FMI, que poderiam conceder prazos muito mais amplos de pagamento. Altamente simpática aos interesses dos países endividados, a proposta, na verdade, vem sendo defendida há mais de um ano pelos próprios banqueiros norte-americanos. Para eles, a solução também seria “sopa no mel”: receberiam do FMI ou Banco Mundial, os bilhões de dólares devidos pelos países endividados, e poderiam usar essa dinheirama para outras aplicações no mercado financeiro internacional. Estariam livres do medo de “moratórias”, atrasos, negociações com a participação de centenas de bancos etc. E com lucros garantidos. Por isso mesmo, a proposta encontra certa resistência por parte da opinião pública dos países desenvolvidos: quem forneceria o dinheiro para a “compra” das dívidas dos subdesenvolvidos seriam os seus governos. No seu entender, os Tesouros nacionais seriam sacrificados para garantir o lucro dos banqueiros privados.
O OUTRO LADO – o próprio governo norte-americano admite que existem hoje cerca de 600 bancos “em dificuldades” nos EUA (onde existem cerca de 15 mil bancos de pequeno e médio porte). O noticiário da imprensa costuma atribuir seus problemas aos atrasos nos pagamentos de países como o Brasil. A verdade é bem outra: no caso dos bancos de pequeno e médio porte, regionais, eles “encalacraram” por causa de seus empréstimos a empresas energéticas e à agricultura dos EUA. Com o aumento nos preços do Petróleo, em 1979, milhares de empresas começaram a explorar gás, xisto e carvão, nos EUA, recebendo financiamentos maciços; a queda dos preços do petróleo, nos últimos dois anos, tornou esses produtos antieconômicos, isto é, com preços sem condições de competir com o petróleo. As empresas faliram ou tiveram que conter seus planos. Quanto à agricultura, as milhões de toneladas de excedentes deprimiram violentamente os preços dos produtos agrícolas em 1981 e 1982, fazendo os agricultores dos EUA trabalharem no vermelho – e incapacitando-os a pagar os empréstimos bancários. Para eles, a situação já mudou em 1983.