Revista Visão , quarta-feira 26 de fevereiro de 1992
Nos anos 60, isto é, há apenas trinta anos, os EUA e outros países ricos apresentavam apenas 2% a 5% de sua população nas roças, na atividade rural. No Brasil, mais de dois terços da população viviam no campo, percentual que subia para 80% a 90% em regiões menos desenvolvidas, como Nordeste e Centro-Oeste. Os números permitem entender claramente a violenta transformação, o violento “salto” que o Brasil deu no espaço curtíssimo (em termos históricos) de três décadas – e eles justificam repisar a importância de os dados do Censo serem exaustivamente examinados, revirados pelo avesso, pelos governantes, economistas, cientistas e empresários brasileiros. É preciso repisar que o Brasil do qual se falou ao longo dos anos não existia há muito tempo – e, por isso mesmo, é preciso repensar tudo daqui para a frente, para que o governo e empresas não cometam erros monumentais, com monumental desperdício de recursos e persistência de problemas que poderiam ser evitados e superados.
Em resumo, já nos anos 60 os países ricos acusavam décadas, ou até séculos, de urbanização, concentração da população nas cidades – com todas as suas conseqüências. O Brasil, em oposição, era um país agrícola, numa outra fase do desenvolvimento econômico, sem cidades, sem indústrias, sem serviços públicos, sem mercado de trabalho. À medida que a crise da agricultura, a partir dos anos 50, esvaziou os campos e empurrou milhões de pessoas para as cidades e regiões metropolitanas, a população urbana “inchou”. Ampliou-se gigantescamente a escala dos problemas sociais: não só não havia dinheiro para criar os serviços essenciais (escola, água, esgotos, hospitais) ao atendimento das massas que se aglomeraram nas grandes cidades. Pior ainda: a economia local não tinha como oferecer ocupação, emprego, renda a milhões de pessoas. Por isso mesmo, o começo da década de 70 foi o auge dos problemas de miséria, subemprego, desemprego no Brasil. Retomando o fio da meada: o início dos anos 70 foi o pico da “crise brasileira”.
Ao longo de duas décadas, porém, o próprio crescimento econômico – mesmo que com terríveis distorções – foi absorvendo gradativamente a mão-de-obra expulsa para as cidades, multiplicando as oportunidades de emprego no interior do Sul/Sudeste, Centro-Oeste, formando-se um novo país que permaneceu ignorado. Com os olhos mergulhados nas taxas de inflação, na negociação da dívida externa, em problemas do dia-a-dia, a sociedade brasileira não conseguiu enxergar que a “grande crise” ocorreu nos anos 70,que mudanças incríveis se processaram na economia e na sociedade brasileiras – não por mérito de governantes, mas por uma questão de “processo histórico”. Em três décadas, o Brasil deu um “salto”, passou de agrícola a industrialização, de rural a urbano.
O Censo traz a oportunidade de entender isso. Ponto principal a ser analisado por governantes, cientistas e empresários: mesmo no Sul/Sudeste, onde o crescimento populacional foi inferior ao previsto, algumas cidades e regiões acusaram crescimento excepcional no número de habitantes. Já há prefeitos e planejadores cometendo o mesmo erro de sempre, isto é, de fazer projeções em cima desses números, calculando o população nestes próximos dez anos de forma equivocada. O fato é que já não há milhões e milhões de brasileiros nos campos, que poderiam migrar para as cidades como ocorreu nas décadas de 60 e 70.
Em seu conjunto, nunca mais (nunca mais mesmo) as cidades brasileiras experimentarão as taxas de crescimento do passado, como ainda insistem em pensar. Indo ao cerne da questão: é um mal que os censos brasileiros se realizem em cada dez anos. Esse padrão é adotado mundialmente pela ONU, mas ele só serve para os países ricos, “velhos”, onde o processo de urbanização/migração para as cidades ocorreu há muito tempo. Países como o Brasil, com movimentos migratórios (novas fronteiras, atração do mercado de trabalho etc.) não podem esperar uma década para fazer o seu censo, para não trabalhar com estatísticas totalmente erradas, como o último recenseamento mostrou. Por problemas de custo, um sendo qüinqüenal seria inviável. Mas o governo federal e governos estaduais poderiam pensar em financiar pesquisas sérias, por amostragem, para dispor de dados confiáveis, essenciais para planejar e governar.