Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 5 de novembro de 1981
Vai voltar à cena, nos próximos dias, o protesto das classes empresariais contra as taxas de juros que o mercado financeiro, estimulado pelas autoridades monetárias, vem cobrando às empresas, dentro do País. Desta vez, dois fatos novos vão fornecer munição contra o alto custo do dinheiro que, segundo especialistas, poderá realmente provocar uma “quebradeira” generalizada nos próximos meses: o declínio da inflação e o prosseguimento da queda das taxas de juros internacionais (“libor”), que, esta semana, caiu abaixo da casa dos 16%, contra o pico de 20%, no primeiro semestre, e 17 a 18% há um mês e meio. Essas duas tendências novas, na verdade, permitem a imediata redução nas taxas de juros cobradas dentro do Brasil: * A queda da “libor”: como foi ultradito, o próprio governo teria estimulado a elevação das taxas de juros internas para forçar as empresas a tomarem empréstimos externos, que apresentavam um custo mais baixo, até setembro/outubro. No entanto, hoje, os bancos estão cobrando cerca de 150% ao ano, nos empréstimos às empresas, enquanto as taxas de juros nos empréstimos externos já estão na casa dos 120% ao ano. Como se chega a esse resultado? Eis os cálculos: 16% de “libor”; mais 2,25% de “spread” (“comissão” dos banqueiros internacionais), mais 0,5% de diferença na compra e venda dos dólares (cobrada pelos bancos nacionais), mais 6% (média) de comissão dos bancos nacionais, e mais 4% do Imposto de Renda, resultando em custos de 28,75%. A esses custos, deve ser acrescentada a correção cambial, isto é, a desvalorização do cruzeiro nos próximos doze meses, até recentemente estimada em 80% por dirigentes do mercado financeiro. Como a inflação acelerou o seu ritmo de queda, com uma taxa em tomo de apenas 4% em outubro — resultado abaixo das estimativas do governo —, pode-se deduzir que a correção cambial, nos próximos meses, será até inferior àqueles 80%. Mesmo que se utilize como hipótese essa correção de 80%, o custo de um empréstimo externo estaria hoje na casa dos 120%. mais exatamente 121,75%. resultado da soma daqueles custos (28,75%) e da correção cambial prevista de 80% (na verdade, o cálculo correto corresponde à multiplicação de 128,75% por 1,80). No caso de uma correção cambial de 70%, o custo cairia para 118,9%. Em qualquer uma das hipóteses, porém, os empréstimos externos já estão 30 pontos percentuais abaixo das taxas cobradas pelos bancos, mostrando que os juros podem recuar, aqui dentro. * O declínio da inflação: já se lembrou que, com a inflação caindo para a casa dos 4% ao mês, as taxas anuais despencarão muito mais rapidamente do que as autoridades monetárias previam. Com isso, o custo real dos empréstimos (isto é, a diferença entre a inflação e as taxas de juros cobradas) cresce assustadoramente: juros de 150% ao ano. para uma inflação na casa dos 60 a 70% ao ano, significarão um custo real de 90 a 80%, trazendo sérios prejuízos ou mesmo risco de insolvências às empresas.
ÚLTIMA DESCULPA
Ao longo dos últimos meses, o pretexto para elevar as taxas de juros foram sempre a inflação, “que ainda não estava caindo” (embora os índices mostrassem o contrário), e o “custo dos empréstimos externos”. Removidos esses dois pretensos obstáculos, restaria uma última desculpa para o exorbitante custo do dinheiro: o próprio interesse do governo, isto é, a necessidade de o Banco Central “vender” Letras do Tesouro Nacional para retirar dinheiro de circulação e assim controlar a expansão dos meios de pagamento — e a inflação. Com a queda da inflação, esse argumento tem que ser revisto. Antes de mais nada, porque sempre se afirma que o governo precisa oferecer alta rentabilidade aos compradores de seus títulos, para que haja interesse e, logo, mercado para eles. Aceito esse argumento (discutível), ainda assim é hora de reduzir as taxas de juros dos títulos oficiais, já que uma inflação menor exige uma remuneração também menor ao investidor. Há mais, porém: a expansão dos meios de pagamento, no Brasil, está diretamente relacionada com os bilhões e bilhões de cruzeiros que o governo “paga” como subsídios, em diversas áreas — principalmente no suprimento de crédito à agricultura, exportação e “setores prioritários”, sob a forma de taxas de juros baixas, inferiores à inflação. A medida que a inflação cai, a massa de subsídios também se reduz — logo, também a massa de dinheiro injetada na economia se encolhe. O que, por sua vez, reduz a necessidade de vender LTNs para recolher os recursos. A queda da inflação exige uma análise imediata de suas conseqüências em todas as áreas, para pronta revisão de diretrizes da política econômica. A redução dos juros é uma das prioridades.